A carteira segue aberta

Nenhuma casa de fragrância investiu tanto no Brasil, nos últimos anos, como a Symrise. E é possível que isso se repita pelos próximos três anos



Ao longo dos últimos anos, o Brasil foi responsável por muitas felicidades e, especialmente, bons números para as casas de fragrâncias globais. A soma de um povo apaixonado por cheiros com marcas locais que se posicionam entre as maiores do mundo e todos os principais players globais de higiene pessoal e cosméticos brigando ferozmente em terras tupiniquins é fácil de entender o porquê de tanta atenção dessas empresas por aqui.

Na cadeia de abastecimento da indústria da beleza, as casas de fragrâncias têm status diferenciado. Seja pela inteligência de mercado e conhecimento do consumidor, capacidades que essas companhias vêm desenvolvendo há décadas; pelos proativos – como são chamados os projetos desenvolvidos pelas próprias casas e que depois são apresentados aos clientes; ou simplesmente pela importância que a fragrância tem na decisão final de praticamente todas as categorias do setor, não é exagero afirmar que as casas, mais do que fornecedores de matérias-primas – o que elas são de fato –, ganharam um papel estratégico no desenvolvimento de produtos e negócios das suas clientes, fabricantes de todos os portes dentro do mercado de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos.
Entre o final da década passada e o início desta, as quatro principais casas globais: as suíças Firmenich e Givaudan, a norte-americana IFF e a alemã Symrise, investiram, cada uma, dezenas de milhões de reais para melhorar suas operações no País. Nesse período, todas elas inauguraram novos e modernos Centros Criativos por aqui, com o objetivo de suportar o crescimento e dotar os profissionais locais com novos e modernos recursos.

Mas, considerando outros investimentos, nenhuma companhia aportou tantos recursos por aqui ao longo dos últimos cinco anos como a Symrise. No total, desde 2009 e considerando o câmbio atual, os investimentos realizados em infraestrutura pela empresa superaram os R$ 150 milhões. É bem verdade que a empresa vinha de uma estrutura local menor do que suas principais concorrentes. Criada em 2004, a partir da fusão da Harmann & Reimer com a Dragoco, a empresa aproveitou boa parte das estruturas dessas empresas por aqui, que ocupavam posições relevantes no mercado local, mas com certa distância dos tradicionais líderes do setor, que dominavam o mercado, tanto que nenhuma das três principais concorrentes divulgou planos para a construção de novas unidades de produção em fragrâncias, por exemplo. A Symrise não tinha opção. Se quisesse brigar em condições de igualdade teria de abrir a carteira e investir mais do que os outros. E assim foi feito.
A empresa ampliou a sua fábrica de aromas e óleos essenciais em Sorocaba, interior de São Paulo, onde também ergueu o seu Centro Global de Cítricos, uma área na qual a empresa tem grande expertise. Em Cotia (SP), além do Centro Criativo para a América Latina, funciona o Centro Global de Hair Care da empresa, que atua tanto na área de fragrâncias como na de ingredientes cosméticos. Essa atuação nos dois universos é, aliás, uma peculiaridade do modelo da Symrise que vem chamando a atenção das suas concorrentes. Tanto que Givaudan e IFF fizeram aquisições recentes de fabricantes de ativos cosméticos para serem integrados aos seus respectivos portfólios.

O mais recente fruto desses investimentos foi a inauguração da Symrise Amazon, uma planta dedicada ao processamento de ingredientes, óleos e extratos da região amazônica, dentro do Ecoparque, um complexo industrial na cidade de Benevides, no Pará, gerido pela gigante brasileira do setor Natura e que abre um novo leque de possibilidades na área de Pesquisa e Desenvolvimento de ingredientes naturais para as indústrias de fragrância e beleza.

Mais estrutura, mais gente
Com tantos investimentos para ampliar a capacidade de produção, a estrutura de pessoal também precisou crescer, e ela cresceu bastante. “Temos sido a companhia de fragrâncias com o crescimento mais rápido do mercado pelo menos nos últimos seis anos. E para continuarmos crescendo acima do mercado, precisamos crescer como organização e as contratações (de profissionais) são uma expressão disso”, pontua o alemão Achim Daub, presidente global da Symrise Scent & Care.

Por aqui, especialmente nos últimos dois anos, a empresa recrutou na concorrência profissionais experientes da área de Marketing e Avaliação. Esta última área, crítica para o negócio de fragrância, foi dividida em duas com a criação de diretorias para a América Latina, uma específica para produtos de consumo, como: shampoos, sabonetes e cremes; e outra dedicada exclusivamente a Fine Fragrances. É a Avaliação quem faz a “ponte” entre as áreas de mercado, como Marketing e entendimento do consumidor, com os times criativo e técnico, como os perfumistas, buscando o equilíbrio entre as duas pontas para chegar ao resultado final.
O coração de qualquer casa de fragrância – ainda que elas comecem a adentrar por outras áreas de negócios – continua sendo os perfumistas. E é na área criativa que a empresa fez os movimentos mais ousados, com a contratação do perfumista Eurico Mazzini, dono de uma carreira de 35 anos e criador de fragrâncias clássicas como Kaiak e Ekos Açaí, ambas para a Natura e Pur Blanca Noite, para Avon. Foi também três vezes vencedor do Troféu Aparício Basilio da Silva de Criação Perfumística, do Prêmio Atualidade Cosmética.

Mas a maior ousadia da Symrise foi a de “tropicalizar” um dos seus mais importantes perfumistas. Considerado um dos mestres da perfumaria fina mundial, o francês Maurice Roucel vai dar expediente no Centro Criativo da empresa em Cotia pelos próximos dois anos. Em mais de 40 anos de carreira, ele atuou em quase todas as grandes casas de fragrâncias do mercado e criou fragrâncias exclusivas para Guerlain e Hermès. O portfólio de criações assinadas por Maurice é bastante versátil e inclui perfumes de marcas de nicho como Frederic Malle e Bond Nº9, e também fragrâncias para o mercado de mass market e masstige, para marcas como Adidas, Nautica e Avon – incluindo a criação de Luiza Brunet Poderosa, assinado em conjunto com o perfumista Isaac Sinclair. “Este é o último grande desafio da minha carreira. Continuarei fazendo minhas viagens entre Paris, NY e Dubai para projetos especiais, mas minha residência será em São Paulo”, declara o perfumista.

O alto investimento realizado pela operação local da Symrise para alocar no Brasil um nome desse quilate não é sem motivo. “Está muito claro para nós que o mercado brasileiro está no caminho da sofisticação e isso vai se intensificar nos próximos anos e é importante trazer pessoas que realmente entendam na raiz o que é o mercado de perfumaria sofisticado, de luxo. Por isso, estamos trazendo o grande ícone da Symrise, que conhece muito bem esse universo da perfumaria para atender localmente a essa demanda que a gente acredita estar reprimida neste momento. Maurice tem o dom de traduzir todos estes códigos, que com um toque de brasilidade e ‘latinidade’ pode fazer a diferença. Em conjunto com nossos principais clientes, esperamos longas e vitoriosas parcerias”, explica Ricardo Omori, presidente da divisão Scent & Care para América Latina.

Naturalmente, trazer um nome como Maurice não diminui de maneira alguma os talentos locais (e internacionais) que compõe o time de perfumistas da Symrise. “Temos ícones locais como o Joachim Correl e o Eurico, a Magali Lara e também jovens talentos como a Fanny Grau e o Isaac. E o Maurice que traz agora essa visão de fora”, considera Ricardo, que acredita que o movimento terá reflexos sobre a concorrência.

Investimentos continuam
Apesar dos investimentos vultosos já realizados, tanto Achim Daub quanto Ricardo Omori deixam claro que o ciclo de grandes investimentos da empesa por aqui ainda não se encerrou. Nesse momento, a empresa está em busca de uma área para construir uma nova planta de fragrâncias, cujo projeto prevê inauguração nos próximos dois ou três anos. A fábrica atual da empresa ainda está localizada em São Paulo, no complexo onde funcionava a Harmann & Reimer e que serviu de base para a Symrise até a mudança para Cotia. Com o grande crescimento dos últimos anos, a empresa sabe que precisa de uma nova planta, maior e mais moderna, para vencer a demanda futura. “Esses investimentos nunca terminam, ainda mais em um negócio tão dinâmico como o mercado de beleza e em um país como o Brasil. Crescemos tão fortemente por aqui que precisamos correr sempre para ampliar nossa capacidade e dar conta de atender aos nossos clientes”, diz Achim.
O valor exato do investimento da nova fábrica ainda não está fechado. Ele certamente será superior a R$ 100 milhões. Mas o valor, segundo o próprio presidente global da Symrise, pode dobrar em função de fatores como o nível de automação da fábrica que irá atender a toda a América Latina.

Sejam 100 ou 200 milhões, são valores consideráveis de investimento, ainda mais para quem já aportou tanto dinheiro por aqui e, especialmente, pelo momento delicado pelo qual passa a economia brasileira hoje. Só que os objetivos da empresa não estão sendo traçados com vistas para o curto prazo. “Olhando a realidade do Brasil, hoje você vai achar que eu sou louco (de levar os investimentos à frente). Mas não estou olhando para os próximos 12 meses e sim para os próximos cinco anos. 2015 vai ser duro, 2016 é provável que também seja difícil, mas estou certo que em 2017 essa curva vira. E aí a estrutura que vislumbramos para a Symrise vai estar pronta”, conclui Ricardo.


 
Bem-vindo à Selva
 
Foi durante um café da manhã de negócios em 2012, na Cidade do México, que Achim Daub tomou contato pela primeira vez com o novo projeto da gigante brasileira da beleza, Natura, para a Amazônia. “Eram 7h da manhã quando o Eder Ramos (atual presidente global da área de Ingredientes Cosméticos e na época presidente da divisão Scent & Care para a América Latina) me pediu cinco minutos para apresentar um projeto. Ele abriu o laptop e me mostrou o projeto do Ecoparque e todo o comprometimento e o trabalho que a Natura estava empreendendo na região. E eu disse: vamos fazer.” Pouco mais de dois anos depois, a companhia alemã se tornou a primeira parceira da empresa brasileira no empreendimento, com a inauguração no último dia 21 de maio, da Symrise Amazon.

A nova unidade começou a operar com dez funcionários, numa área de produção de dois mil metros quadrados. Nesta fase inicial, a empresa fará no local o processamento de manteigas e óleos de ativos da biodiversidade: cupuaçu, cacau, andiroba, ucuuba, murumuru, maracujá e castanha. Na sequência, a empresa vai transferir para lá a sua produção de extratos botânicos – atualmente realizada em Sorocaba – e, até o final do próximo ano, iniciar a produção de novos ingredientes para a indústria de perfumaria. O investimento total na unidade será de cinco milhões de euros (pouco mais de R$ 16 milhões pelo câmbio atual). Toda a produção inicial será destinada à Natura, que mantém uma fábrica de sabonetes no Ecoparque, que vai produzir mais de 200 milhões de unidades este ano e tem capacidade instalada para produzir 500 milhões anualmente. A Symrise Amazon também vai abastecer com ingredientes de origem amazônica a planta da Natura em Cajamar, na região metropolitana de São Paulo. “O mais importante é que eles vão trazer tecnologia e atender a toda a base de clientes globais exportando a partir daqui, que é o que a gente quer. A Symrise vai levar matérias-primas que a Natura gerencia para clientes globais e, mesmo para concorrentes, a gente não tem problema nenhum com isso. Pelo contrário, essa corrente transformadora é justamente o que agente quer fazer”, comemora Josie Peressinoto, vice-presidente de Supply Chain da Natura. Eder diz que existe uma expectativa enorme em torno do projeto da empresa na Amazônia por parte de todos os seus principais clientes. “Temos dito a todos que, no momento em que tudo estiver instalado, iniciaremos a nossa ida ao mercado. Isso deve acontecer em janeiro de 2016”, conta.

100% renovável
A fábrica da Symrise no Ecoparque também se alinha a uma meta ambiciosa da companhia alemã. Até 2020, a empresa pretende trabalhar somente com matérias-primas de fontes renováveis, substituindo todas as matérias-primas derivadas de petróleo, ainda um componente importante na indústria de perfumaria e cosméticos. A motivação para assumir tamanho desafio, mais do que uma simples opção de abastecimento ou de custos, é a deixar um mundo melhor para quem chegar ao planeta depois. “Seria muito mais simples e barato ficar com a cadeia de carbono, mas não é isso”, pontua Eder Ramos. O executivo conta que a empresa está buscando essas fontes renováveis não só na Amazônia, mas também na Ásia, em Madagascar, na África, além de trabalhar muito fortemente com a cana de açúcar, buscando resolver esse problema para a indústria e perfumaria e cosméticos. Apesar da missão hercúlea, ele acredita que o objetivo é factível, ainda que, para alcançá-lo, seja necessário abrir mão de algumas matérias-primas, o que não deve impactar demais dentro de uma paleta com cerca de dez mil ingredientes. “O cenário mudou. Hoje o consumidor quer saber o que está passando na pele dele. Isso não era discutido há alguns anos. E ele também quer saber a origem do produto. Você está muito próximo de chegar no supermercado e poder rastrear a origem de tudo”, acredita.

Pesquisa de ponta
Para alcançar esse objetivo, será fundamental o investimento em tecnologia. E nesse ponto, a operação brasileira, como um todo, terá um papel central. Um dos objetivos do novo plano estratégico da empresa é dotar o quartel-general da companhia, localizado na Granja Viana (SP) com um núcleo de competência dedicada ao programa de biodiversidade, além de alguns equipamentos de pesquisa na unidade do Ecoparque. “Assim como criamos toda uma competência em Madagascar, inclusive com a instalação de um centro de pesquisa lá, vamos replicar o mesmo modelo aqui. Estruturar equipe, laboratório e principalmente parcerias para verificar em conjunto como podemos trabalhar melhor para desenvolvermos novos ingredientes, novas moléculas”, diz o diretor de P&D da Symrise, Adelino Nakano.
Aqui no Brasil, a ideia da empresa é desenvolver projetos conjuntos de pesquisa entre ingredientes e fragrâncias. O principal pilar para o trabalho será o aproveitamento de subprodutos ou resíduo de processos. “Já mapeamos algumas comunidades para ver como eles trabalham. No caso do processo com frutas, por exemplo, eles fazem sucos, compotas, alimentos, polpas e nisso geram resíduos como a casca, ou sobra um pouco de polpa no fruto. Fizemos alguns ensaios em que conseguimos aproveitar esses resíduos e gerar o valor agregado. E estamos tentando sempre olhar para ver o que pode ter de benefício nas duas áreas – fragrâncias e cosméticos”, explica Adelino. O conceito, aliás, tem tudo a ver como o modelo do Ecoparque que é o de criar uma cadeia produtiva integrada, em que insumos produzidos ou descartados por uma empresa possam ser utilizados na produção de outra. “Vamos praticar o aproveitamento total e não só pegar o que está pronto. Não queremos fazer mais uma coisa que todo mundo já tenha, mais uma commoditie”, emenda Adelino.

Para dar conta da empreitada, a empresa está ampliando o seu time com pesquisadores da Alemanha e do Brasil. Um dos esforços da pesquisa é o de criar novas moléculas para perfumaria fina no Brasil, algo que a empresa já está fazendo. “E não é óleo essencial. São moléculas mesmo. O óleo essencial faz parte do processo, mas nós realmente queremos desenvolver moléculas, tecnologias de ponta”, confirma Ricardo Omori. A vinda do perfumista francês Maurice Roucel para o Brasil também tem a ver com esse objetivo, já que ele é parte do comitê de desenvolvimento de novas moléculas da casa. A expectativa da empresa é que em dois anos as primeiras moléculas desenvolvidas localmente possam integrar as paletas de ingredientes criativos dos perfumistas da casa ao redor do mundo.

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