Antonio Mauro Neto: eterno amigo

Antonio Mauro Neto, o Maurinho da ORUAM, foi para o outro plano, deixando atrás de si uma trajetória brilhante, que já serve e há de servir ainda de exemplo para muitas e muitas gerações


Todo mundo diz que unanimidades não existem, e que, se existissem, seriam burras. Mas como toda regra tem sua exceção, fica fácil compreender a tristeza que, no dia 31 de outubro de 2012, invadiu os corações de todos, quando a notícia do falecimento Antônio Mauro Neto - o Maurinho, presidente da rede de lojas de perfumaria seletiva ORUAM- chegou aos seus ouvidos.

Homem simples, dono de ideais claros e de uma personalidade marcante, Maurinho sabia, como ninguém, fazer amigos e colecionar admiradores. E, nesse enorme grupo de pessoas que ele honrou com sua amizade, estavam até mesmo seus competidores de negócios, gente que tinha nele uma forte referência de lisura profissional. Acerca disso, ele gostava sempre de citar uma máxima do escritor espanhol José Ortega Y Gasset, que diz: “O homem superior produz os acontecimentos. O inferior, apenas se aproveita deles.”

Colocando a poesia na prática, Maurinho afirmava que não via, de maneira alguma, seus concorrentes como inimigos. “Mas gosto da briga boa por espaço no mercado, aquela na qual a estratégia conta mais do que o oportunismo em busca do lucro fácil”, registrou numa de suas muitas entrevistas à revista Atualidade Cosmética.

Com essa determinação e um jeito muito particular, Maurinho sempre se orgulhou de ser a cara de sua empresa. Mais do que o nome, ele herdou boa parte desse comportamento de seu avô paterno, um renomado gramático e dono de uma rede de farmácias de manipulação no interior de São Paulo, que aflorou nele o gosto pelo comércio. O avô de Maurinho foi o primeiro também a inverter o sobrenome da família Mauro, para grafá-lo como “ORUAM”, provavelmente,pela paixão que tinha pelas palavras.

Bom senso e flexibilidade
Misto de charutaria e canetaria, a primeira loja da rede surgiu em 1954, na Av. São João. Braço direito de seu pai, que à época comandava os negócios da família, Maurinho assistiu, na primeira fila e com muita satisfação, a chegada à ORUAM de alguns dos principais ícones da perfumaria de então, tais como Cabochard, Ma Griffe e Balmain. “Foi aí que começamos a nos diferenciar, uma vez que as lojas de produtos importados que concorriam com a gente funcionavam mais ou menos como os mini-shoppings de hoje. Ou seja, tinham de tudo. Assim, no início da década de 1960, a ORUAM foi a primeira loja especializada em perfumaria da cidade, inaugurada na Rua Barão de Itapetininga”, gostava de explicar Maurinho, sem esconder um justificável brilho de orgulho nos olhos.

Tal fato acabou trazendo muita coisas boas a reboque, como a consolidação da rede e a tradição de benchmark que, até hoje, a ORUAM inspira o varejo seletivo. Mas o mais interessante foi que, apesar da especialização em perfumaria seletiva, a ORUAM jamais relegou ao ostracismo as outras categorias de produtos que ajudaram a construir a tradição da rede, em especial a de canetaria, cuja enorme variedade de modelos e opções nunca decepcionou os clientes fiéis de suas lojas.
Mas embora respeitasse as tradições, após ter assumido a direção da ORUAM, Maurinho nunca deixou de ser um empresário arguto, capaz de perceber com rapidez as mudanças mais sutis no âmbito do mercado. Assim, face aos muitos momentos de instabilidade da economia brasileira, nunca hesitou diante de decisões difíceis que pudessem garantir a continuidade e mesmo a sobrevivência de seus negócios, tais como a redução do tamanho da infra-estrutura da rede, o que, mais de uma vez, redundou em cortes na própria carne, com a redução de seu número de lojas. E o mesmo aconteceu com o peso dado à perfumaria nesses espaços, que, no auge no Plano Real, quando a importação de fragrâncias seletivas bombava, chegou a compor 76% de seu mix de loja. Muito antes do agravamento dos problemas que ainda hoje são recorrentes na distribuição de prestigio, Maurinho equilibrou esse percentual, intensificando a presença de outras categorias de produtos em suas lojas, como foi o caso de sua muitíssimo bem sacada linha de produtos de marca própria, que conta com cachimbos, canetas, bolsas e, ainda, os charutos e cachaças artesanais da marca Angelina, hoje um sucesso em todo o País. E, como era de se esperar, ele nunca interpretou mudanças radicais como essa como retrocessos: “Longe disso, foram sempre vitórias da capacidade de adequação da ORUAM à realidade do mercado brasileiro, no sentido de prestar, também, a melhor qualidade de atendimento aos nossos clientes, é claro”, costumava sublinhar.

Confiança no futuro. Sempre
Antônio Mauro Neto foi também um dos primeiros a alertar e levantar sua voz contra os problemas da informalidade na distribuição seletiva, que, junto com a tributação abusiva sobre os importados, continua a ser um flagelo para o desenvolvimento do setor no País. Conciliador e homem de visão, ele acreditava firmemente que a única forma de os varejistas saírem desse círculo vicioso, para entrar num círculo virtuoso, era estes unirem suas forças em torno de objetivos comuns, com a criação de uma associação de lojistas de distribuição seletiva, mirando também a erradicação de outra excrescência, a guerra de preços, fomentada pela atávica falta de entendimento entre os empresários da cadeia de prestígio.

Entretanto, independentemente das crises e de todas as dificuldades, Maurinho se declarava sempre um otimista e um entusiasta, que acreditava no desenvolvimento do Brasil e, sobretudo, na continuidade da saga vitoriosa da ORUAM. Na verdade, ele nunca duvidou disso. E quando pensava na trajetória de já quase 60 anos de sua rede de lojas, fazia questão de não esconder a gratidão e o orgulho que sentia pelo fato de uma empresa familiar ter chegado tão longe.
Para seus negócios, Maurinho sempre desejou que o futuro da ORUAM continuasse a ser trilhado com muita segurança e pé no chão. E foi com esse intuito também que, diligentemente, cuidou do processo sucessório da rede, para que este fosse o mais tranquilo e natural possível, centrado no bom diálogo que fazia questão de manter sempre com suas filhas Mônica, Alessandra e Andréia, que, gradativamente, passaram a ter uma participação cada vez maior na gestão dos negócios da empresa.

Quando, em 2004, a ORUAM completou 50 anos de atividades, Maurinho concedeu uma outra entrevista à revista Atualidade Cosmética, na qual renovou esses votos e manifestou a crença de que tudo estava no caminho certo: “Nos próximos 50 anos, veja o ORUAM crescendo e se solidificando. Hoje, minha netinha Maria Eugênia já faz borrifação nas lojas e meu netinho Pedro Henrique já está etiquetando produtos. Antes ele queria ser bombeiro, Mas, agora, me diz que quer ser presidente da ORUAM. Sei lá, vamos ver...”, finalizou com seu sorriso cativante.

Com certeza, do lugar privilegiado onde deve estar, Maurinho verá seus melhores sonhos se realizarem. Porque o exemplo que ele conseguiu plantar no coração de todos aqueles que tiveram a honra e a felicidade de conhecê-lo nunca morrerá e jamais será esquecido. E, neste exato momento, ele também deve estar sorrindo de alegria e esperança com essas perspectivas. Obrigado por tudo, Maurinho!
 

 
Missão cumprida
 
Veja o que alguns dos parceiros e amigos de Maurinho têm a dizer sobre ele:

“Em 1987, fiz carreira na perfumaria local, quando por sorte conhecei o Mauro. Trabalhamos juntos na extinta IPERCO, filial da Christian Dior no Brasil, empresa que produzia os produtos localmente, tempos em que a importação era proibida no país. Ao longo dos anos, notei que o Maurinho buscou inovação no mercado e conduziu sua equipe de maneira exemplar. Posso afirmar que sou uma mulher de muita sorte. Tive o privilégio de ter convivido anos a fio com o Mauro, ou melhor, o Maurinho, assim como era conhecido por seus amigos mais próximos. Ele era um homem alegre, vivaz, amigo, um profissional exemplar. Completamente apaixonado por sua família, lembro dele com imenso carinho, especialmente por sua generosidade. Por isso, além de ser um dos melhores clientes foi, acima de tudo, um amigo. Maurinho faz muita falta, mas sei que cumpriu com maestria sua missão entre nós!”
Barbara Kern, vice-Presidente de Marketing e Regional da RR Perfumes e Cosméticos

“Falar do Maurinho ou seja o GRANDE MAURINHO, que de pequeno só tinha a altura é um das tarefas mais fáceis para quem o conheceu, e conviveu tanto nos negócios como na vida pessoal  e aprendeu a ama-lo da maneira mais sublime que você possa gostar de uma pessoa. Mauro viveu sua vida intensamente e com uma alegria imensa que era transmitida num simples bom dia, um aperto de mão ou um aquele forte abraço de saudade, saudade esta que bastava ficar uns quinze dias sem encontra-lo e já era o suficiente para aquele abraço de amigo, irmão querido.  Ao telefone ele atendia sempre com um MUITO BOM DIA  SAUDADE DE VOCÊ, se você estivesse um pouco triste bastava ouvir isso e o seu dia seria de alegria.  Na sua nova Morada lá no Alto com certeza após sua chegada todos estão super alegres, ele tem esse poder que recebeu de Deus.”
Luiz Britto Filho, ex-presidente da ADIPEC.

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