Atualidade Cosmética pelo Brasil - CEARÁ 1: Não tão ágeis, mas sempre pra frente

Atualidade Cosmética pelo Brasil - CEARÁ 1: Não tão ágeis, mas sempre pra frente
TRADICIONAL, A INDÚSTRIA DE BELEZA DO CEARÁ NÃO SAI CORRENDO PARA SEGUIR QUALQUER ONDA QUE APAREÇA. O QUE NÃO QUER DIZER QUE SUAS EMPRESAS NÃO ESTEJAM ATENTAS AO QUE SE PASSA NO MERCADO  



O mercado cearense de cosméticos não é nem o maior, nem o que tem o maior número de indústrias. De acordo com a ANVISA, 67 empresas locais estão aptas a operar no mercado de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos. Dessas, 19 são filiadas ao Sindquímica, que representa as indústrias cosméticas no estado. O faturamento estimado das indústrias locais gira entre R$ 120 milhões e R$ 150 milhões. 

Mas basta conversar com os empresários cearenses da indústria e do varejo de beleza para se assegurar de uma coisa: eis um povo que não tem medo de "cara feia" e que não reclama à toa. É verdade que os governos locais, desde o primeiro mandato do ex-governador Tasso Jereissati, no início dos anos 1990, têm dado grandes incentivos às indústrias que produzem localmente. Isso ajudou a tornar o estado competitivo e permitiu o avanço de grandes grupos empresariais como Edson Queiroz, M Dias Branco, J Macedo e até mesmo varejistas como a Pague Menos por todo o Brasil; embora isso reflita uma guerra fiscal que também pune as indústrias locais em certos estados, inclusive a Bahia. 

Isso ajudou a criar uma cultura no estado que se reflete numa indústria de beleza que dentro das suas limitações, tem sido dinâmica para se modernizar e evoluir com sua oferta de produtos, de olho em categorias de maior valor agregado e, também, em modernizar sua oferta para atender aos gostos e anseios de novos consumidores. "A indústria do Ceará é dinâmica. Temos muitas empresas pequenas aqui que tem visão, vão buscar o que está acontecendo lá fora e estão crescendo", acredita Paulo Gurgel, fundador e presidente da fabricante local Cigel. Mas, tudo isso é feito sem abrir mão das suas características, que envolve ser muito tradicional. A indústria cearense não é novidadeira, daquelas que vão sair correndo para seguir as invencionices que volta e meio "bombam" no mercado de beleza. Suas empresas costumam concentrar suas vendas nas regiões Norte e Nordeste, com forte destaque para o próprio Ceará, que responde pela maior mercado para as empresas locais.

Diferentemente do que acontece em outros mercados do Nordeste, a atuação das indústrias locais é mais diversificada em termos de categorias, com destaque para sabonetes antissépticos e íntimo, banho de lua e água oxigenada e repelentes. 

Os produtos para os cabelos não reinam absolutos por lá, embora naturalmente tenham seu espaço no portfólio das indústrias locais. Eles foram o ponto de partida na história da Cigel, fundada em 1986 e que começou fabricando shampoos. Com dificuldade para introduzir os produtos nos distribuidores e grandes varejistas, ela foi encontrar seu espaço nas periferias, vendendo diretamente para o pequeno varejo e salões de beleza. Ao se destacar nas prateleiras dos "mercadinhos", a marca chamou a atenção primeiro dos atacadistas e, logo na sequência, dos maiores distribuidores do estado. A partir daí, a Cigel começou a galgar espaço nas principais redes de varejo com a sua marca Alyne e alcançou a liderança no estado e no Norte do País nas categorias de água oxigenada cremosa e acetona. 

Em shampoos e condicionadores, a marca figura entre as mais vendidas no Ceará, dividindo prateleiras com gigantes como Unilever e L'Oréal. A estratégia da empresa não tem muito segredo, oferecer um produto de qualidade por um preço cerca de 25%, 30% mais baixo do que as marcas líderes tradicionais. E, nessa batida, a marca vem crescendo ano após ano, na base de um dígito alto, superando os dois dígitos em alguns casos. Já a companhia como um todo vem sustentando um crescimento na casa dos dois dígitos nos últimos anos. "Somos tradicionais, mas não conservadores. Estamos sempre renovando as nossas linhas e introduzindo novidades", conta o fundador da companhia, que além de Alyne, produz as marcas Aseplyne, de sabonetes antissépticos; Delicardem, de sabonete íntimo e corporal; e o repelente Repele Mais. Com vendas estimadas entre R$ 35 milhões e R$ 40 milhões ao ano e mais de 200 funcionários, a Cigel é hoje a maior empresa de cosméticos do Ceará e uma das cinco maiores do Nordeste. A companhia tem foco de atuação nas regiões Norte e Nordeste e atua, principalmente, via distribuidores especializados, os DEC's e outros atacadistas e distribuidores. 

O atendimento ao varejo especializado e aos varejistas nacionais, como o Cencosud, dono de bandeiras como G. Barbosa e Perini, e a rede de drogarias cearense Pague Menos, é feito diretamente pela Cigel. Aliás, o canal farma é um foco de expansão para a empresa, que busca se aproximar de distribuidores de medicamentos no Nordeste. 

Como é a tônica entre os empresários de beleza do Ceará, Paulo não corre para seguir (e nem para lançar) a última moda do mercado. O fato de não seguir "ondas", entretanto, não quer dizer que a Cigel não olhe para novas oportunidades de mercado. A estratégia da empresa para saber se a oportunidade vale a pena é traçar uma linha-piso nas vendas de produtos que são o hit do momento no setor. "Aquele produto vai ter o boom e depois, naturalmente, vai ter uma queda. Se as vendas caírem até o nível que a gente traçou e a partir daí seguirem numa linha reta, a gente entra", conta. Paulo diz que muita gente reclama que a Cigel demora para lançar seus produtos. Mas, como diz o empresário, ele entra na estabilidade. "Se eu lanço o produto rapidamente para pegar o boom de vendas, o que é que vai acontecer? A gente vende muito, estoca o distribuidor e o lojista e aí, de repente, aquilo deixa de vender. É um tal de cliente ligando, querendo devolução e, se você não aceita a devolução, você gera atrito com o cliente. É um stress muito grande", lembra Paulo, que viveu uma situação assim com o álcool gel durante o surto de H1N1. "Por isso que a gente não entra nesses movimentos bruscos", emenda. 

A Cigel reformulou a linha capilar, com novas fórmulas, fragrâncias e visual. E nela traz opções para cabelos matizados e cacheados, dois segmentos que explodiram, mas se provaram sustentáveis. O empresário vê como uma tendência natural da empresa entrar cada vez mais em categorias de maior valor agregado e - apesar de ser uma companhia que opera em mercados de grandes volumes - aproveitar oportunidades que existem para desenvolver nichos ainda pouco explorados dentro do universo de clientes da empresa. Outro foco de atenção é o início de uma expansão para a região centro-oeste.

O consumidor da Alyne é, majoritariamente, de classe C/D, de 20 a 35 anos. E é um público de tradição, que tem vínculo histórico com os produtos. "Mas é claro que tem o consumidor de marcas tradicionais que, num mês mais apertado, migra para a Alyne e acaba gostando e ficando, porque o produto é mais barato e tão bom quanto. É uma compra racional", compara Paulo.

Para conseguir entregar um produto de qualidade, por preço baixo e, ainda ser economicamente saudável, a Cigel gere seus custos com mão de ferro. E investe constantemente em busca de mais eficiência. Em 2015, a empresa realizou grandes investimentos na automatização da produção, para compensar o espaço reduzido da planta (15 mil m2) para o padrão atual da empresa. Tanto que ela mantém um departamento de engenharia responsável por garantir o aproveitamento máximo da estrutura da empresa, que já roda 24 horas por dia, sete dias por semana. A Cigel também sopra suas próprias embalagens, em equipamentos que chegam a produzir 10 mil frascos/hora. Mesmo com toda a inteligência de mercado disponível, existe um limite para avançar sobre as leis da física. Paulo conta que está em busca de uma área, com pelo menos 80 mil m2, para erguer uma nova planta já pensando em suportar o crescimento futuro da empresa. "Se eu construisse uma fábrica com o dobro do tamanho atual, seria o suficiente apenas para organizarmos melhor e com um pouco mais de conforto as linhas e equipamentos que temos hoje. A capacidade de produção seria, basicamente, a mesma", diz o empresário. O investimento no novo espaço deve ser realizado nos próximos anos e consumir, ao menos, R$ 12 milhões, fora investimentos em novas linhas e equipamentos.

Pronta para crescer
Se a Cigel planeja para os próximos anos a construção de uma nova planta, a Biomátika já está com a sua nova fábrica rodando. Construída com investimentos de R$ 5 milhões, a planta é, de acordo com o seu presidente José Dias, a unidade produtiva modelo para a Anvisa em todo o Ceará. 

Quando decidiu criar sua empresa, o empresário tinha em mente exportar produtos desenvolvidos com base em ingredientes dos seis biomas brasileiros (por isso o nome Biomátika). A companhia até vendeu alguns produtos para Portugal e Espanha, mas, durante uma feira na Bahia, chamou a atenção de uma grande rede de São Paulo, que gostou do portfólio e convenceu José a desenvolver os produtos de marca própria para a varejista. Na sequência, a Pague Menos também enxergou potencial e começou a demandar desenvolvimentos para suas marcas próprias. Embora paralelamente a empresa continuasse desenvolvendo os seus próprios produtos, na prática a Biomátika acabou se convertendo numa grande terceirizadora, desenvolvendo itens para grandes redes varejistas do canal farma, distribuidoras e, até para uma empresa de venda direta chilena, cujo os cosméticos de apelo natural desenvolvidos pela cearense são vendidos em países da América do Sul e da Europa. 

Hoje, o negócio para terceiros representa 80% da receita da Biomátika. E o mesmo percentual dos produtos que saem de sua fábrica em Caucaia acaba sendo vendido no canal farma, no qual atuam os maiores clientes da empresa.
Farmácias e drogaria também são o canal mais importante para a venda dos produtos da marca Biomátika, que ao longo dos anos desenvolveu uma linha de itens mais básicos de higiene pessoal para o canal, como sabonetes para mãos, sabonete íntímo, álcool gel e, mais recentemente, repelentes. Todos eles posicionados numa faixa de 1º preço. Das cerca de 3.600 farmácias no estado, incluindo lojas de redes como Pague Menos, Extrafama e Farmácia do Trabalhador Brasileiro, José Dias acredita estar em praticamente todas. Sendo assim, por estar nas redes, a marca tem presença em todo o Brasil. E, atualmente, a companhia negocia cerca de oito grandes projetos de desenvolvimento para terceiros, incluindo dois laboratórios farmacêuticos, para a fabricação de dermocosméticos.

Mesmo com toda essa movimentação, a Biomátika está decidida a fortalecer o seu portfólio próprio. Nos próximos anos, a empresa espera conseguir elevar para 50% a participação das vendas das suas marcas no resultado total da companhia. ?Como passamos muito focados na terceirização, acabamos deixando as nossas marcas um pouco de lado. Mas, agora, vamos retomar?, pontua José Dias. Para isso, está apostando no desenvolvimento de produtos de maior valor agregado, especialmente nas linhas de tratamento cosméticos. Conta com um departamento de inteligência comercial, que identifica quais categorias e produtos oferecem espaço para essa nova fase da empresa. ?O portfólio de itens mais básicos foi importante para acessarmos às farmácias. Mas agora vamos crescer com produtos mais sofisticados?, acredita ele.

A Biomátika tem olhado muito para itens como shampoos antiqueda e anticaspa, além de itens de tratamento facial. O primeiro marco dessa nova proposta foi o lançamento da Água Micelar Biomátika, com dez benefícios e preço de R$ 25, cerca de 15% abaixo da marca de referência no mercado de mass market. As vendas têm sido um sucesso, de acordo com o empresário. 

A empresa tem se estruturado para essa nova fase do negócio. Primeiro com a entrada de um sócio, a Dupar Participações, que adquiriu uma fatia da companhia. Os recursos foram usados majoritariamente na construção de sua atual unidade fabril. Com 50 funcionários e vendas anuais estimadas em R$ 11 milhões, a Biomátika investiu R$ 5 milhões na nova estrutura produtiva. É isso que tem permitido avançar com projetos de private label para redes de médio e grande porte, ao mesmo tempo em que acelera o desenvolvimento das suas marcas. 

Também renovou toda a equipe de vendas, para atuar de forma mais estratégica e está investindo mais em operações nos pontos de venda e, obviamente, em ferramentas de construção de marca e comunicação. "Passamos a pensar e a desenvolver matérias de merchandising adequados a cada canal e a trabalhar mais fortemente a nossa presença digital. Não vamos mais só vender produto, estamos correndo para construir o nosso nome", explica Renan Dias, filho de José e hoje responsável pela modernização do marketing e da comunicação da companhia. Ele reforça que a tendência é de atuar de forma mais nichada e com novas marcas inclusive, mantendo a Biomátika como marca institucional. 

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Tradição de berço
Antes de iniciar a Biomátika, José Dias trabalhou na empresa da família, o Laboratório Madrevita, um dos mais antigos e tradicionais fabricantes do estado. Fundado em 1955 pelo casal José e Suzete Dias Vasconcelos, o laboratório atuava principalmente no mercado de medicamentos e correlatos, fabricando itens como dipirona, antimicóticos e soro. Na década seguinte, expandiu os negócios e adquiriu o sabonete líquido antisséptico Aseptol, entrando na área de cosméticos. Ainda hoje o carro-chefe da empresa, Aseptol é um produto icônico da indústria cosmética cearense e um campeão de vendas. Foi criado pelo médico Menton de Alencar como uma declaração de amor à sua mulher. O blend exclusivo de ingredientes segue inalterado até hoje. Atualmente, além da fragrância original, a linha conta com mais duas versões de fragrâncias e diferentes formatos de embalagens. A companhia também atua em outras categorias como sabonete íntimo, como a marca Dermanyx; gel de massagem, repelente, antisséptico bucal, shampoos, entre outros. Com 75 funcionários e vendas estimadas em R$ 15 milhões ao ano, a Madrevita tem a maior parte dos seus negócios no próprio estado do Ceará. Os distribuidores e o atacarejo representam os canais mais importantes para a companhia, que também tem presença forte em redes do varejo farma e do canal especializado, cuja expansão tem sido acompanhada de perto pela empresa. 

Diretora responsável pela área de Negócios e Planejamento da companhia, Suzanne Vasconcelos diz que a tem trabalhado com mais afinco para retomar uma maior presença em outros estados do Norte e do Nordeste. "São praças nas quais nossos produtos estão presentes, mas que precisamos fazer um trabalho mais próximo e expressivo", conta a empresária. 

Mesmo no Ceará, a Madrevita tem realizado investimentos para estar mais próxima do mercado. Em 2017, realizou mais investimentos em Marketing e Publicidade com foco no posicionamento e na fixação da marca. "Essa movimentação refletiu bastante no mercado. Se você não está presente, não é lembrado. Agora, os próprios clientes têm nos procurado mais para participarmos de ações conjuntas", comemora Suzanne, para quem esses investimentos ajudaram à empresa a crescer, ainda que ligeiramente, mesmo em meio ao cenário difícil dos últimos dois anos. O produto tem um preço bastante competitivo no mercado. O frasco de um litro, formato mais vendido, custa em média R$ 25. Já a versão de 200 ml é encontrada por cerca de R$ 8 no varejo local (mas chega a R$ 9,50 pelo site da Pague Menos acessado de São Paulo).

Para quem tem como carro-chefe uma marca centenária, as mudanças são sempre mais desafiadoras. "O Aseptol é um produto tradicional, antigo, mas não ultrapassado", afirma Suzanne. Para ela, a qualidade e a credibilidade da marca acabam respaldando junto aos consumidores os outros produtos do fabricante. Isso não quer dizer que a empresa não tenha a noção de que é preciso modernizar o portfólio da companhia e, particularmente, a imagem do Aseptol. "Nos deparamos com esse desafio. Precisamos dar um upgrade na embalagem para que o produto possa se posicionar melhor. O público é tão fiel que qualquer coisa que você muda as pessoas ligam para cá", explica a diretora da Madrevita. Embora tenha as classes C/D como consumidores principais da Madrevita, particularmente o Aseptol é o tipo de produto que 'o avô usava, o pai usava, e agora eu uso'. Suzanne avalia a criação de novas versões do produto, visando um público mais jovem e que permita um sopro de ar fresco à imagem da marca. 

Além da modernização da marca Aseptol, Suzanne, que comanda a empresa ao lado de dois irmãos e da mãe, Suzete, que aos 89 anos ainda dá expediente todos os dias na sede da empresa, avaliam investimentos na melhoria do maquinário ainda para este ano."Precisamos nos organizar para dar vazão ao crescimento. Hoje rodamos apertados", reconhece a empresária. Isso deve se refletir em um maior processo de automação das linhas e na adoção de reatores maiores, que permitam ampliar os lotes de Aseptol. Hoje, a empresa produz cerca de sete mil litros do produto de segunda a sexta e, eventualmente, aos sábados. A fabricante também está olhando com mais atenção para o desenvolvimento de novos produtos para ampliar os negócios da companhia, especialmente na categoria de tratamento de pele, uma linha com a qual a Madrevita tem familiaridade e que ainda oferece espaço para crescimento. 

Pequenos em busca de espaço
O produto mais característico da indústria local é o Banho de Lua, um processo mais completo de clareamento dos pelos do corpo, que o aproxima de um ritual de spa. Trata-se de um item básico para as pequenas e médias empresas locais, como as também tradicionais Laborene e Corpo Dourado, que vendem os kits não só no varejo do estado, mas por todo o Brasil. 

Embora emblemático e com espaço garantido no mercado, o Banho de Lua não representa uma armadilha como o umidificador de cabelos representou para muitas indústrias baianas, que de tão dependentes do produto, não viram que ele acabou batendo de frente com as tendências de beleza natural e valorização dos cachos. Ao que tudo indica, o espaço reservado ao Banho de Lua não deve ser ocupado por nenhum outro procedimento. Mas ele também não é capaz de gerar uma grande diferenciação para as empresas locais que querem alçar um lugar de destaque no competitivo cenário da beleza local e, porque não, nacional.

Algumas companhias jovens estão em linha com a característica empreendedora do cearense, buscando desbravar espaços ainda não ocupados no mercado, especialmente em outros canais que não o varejo tradicional, apostando em diferenciação e buscando um posicionamento de mercado em faixas de preços mais atrativas.

É o caso da Sônia Mesquita, uma rede de salões especializados em tratamentos capilares, com destaque para os tratamentos de queda dos cabelos e que desenvolveu uma linha de cosméticos utilizadas e vendidas nos seus salões. A história da marca remonta ao início dos anos 1980, quando Sônia e suas irmãs controlavam um salão de beleza e a cabeleireira fez um curso de maquiagem corretiva. E, à medida em que aplicava a maquiagem nas sobrancelhas das clientes, ela percebeu que os pelos voltavam a crescer. "Ela ficou intrigada com aquilo e começou a pesquisar para entender e a fazer experiências e testes no couro cabeludo. E aquilo foi dando certo", lembra Ieda Mesquita, irmã e sócia de Sônia. A partir daí, ela direcionou o salão para os tratamentos de crescimento dos cabelos e contra a queda e desenvolveu algumas loções de tratamento para este fim. 

O produto não tinha marca, era a "Loção da Sônia". No começo, elas eram fabricados numa farmácia de manipulação, pela farmacêutica Laura Moraes. Foi ela quem deu suporte técnico à criatividade e às inovações propostas pela cabeleireira. "A Sônia tem um conhecimento empírico. Ela foi a fundo e estudou muito para entender o potencial de cada ativo e de como eles poderiam ser combinados para atingir os resultados que ela esperava", conta a farmacêutica. Só que o sucesso em Fortaleza foi tão grande que a farmácia de manipulação não poderia continuar produzindo as loções. 

Nessa época, as irmãs chegaram a procurar por terceiristas para fabricar os produtos em escala industrial, mas além dos volumes pequenos, existia muito receio da parte delas, especialmente em relação à confidencialidade da fórmula. Foi quando Ieda aventou a ideia delas mesmas montarem uma fábrica para ter o controle sobre o processo de produção e avançar com a marca no mercado. ?Quando contei a ideia, a Sônia achou que era loucura, mas realmente acreditava que era o melhor caminho?, lembra Ieda. 

Esse foi o embrião da Fibravite, a indústria criada pelas irmãs e os outros sócios do salão Sônia Mesquita. Ideia aceita e, em 2012, começou o projeto e o planejamento para a empreitada. A primeira produção, entretanto, só saiu em setembro de 2015. 

Ao mesmo tempo em que foi criada pensando em desenvolver os produtos da Sônia Mesquita - que além dos itens utilizados pelos profissionais nas três unidades da rede, comercializa os kits de manutenção na faixa dos R$ 400; e outras marcas da própria empresa -, a Fibravite viu um nicho de mercado sem ninguém para atender e tratou de fisgá-los: o da terceirização de volumes menores de produtos. "Olhamos muito para empresas que vão fazer produções de 200 kg. Um terceirista maior não vai colocar uma produção dessa num reator de uma tonelada", diz Josino Medeiros, sócio-diretor da Fibravite. 

A demanda tem sido surpreendente e a jovem empresa já se prepara para investir numa nova linha de produção, também para atender a pequenos volumes e dar vazão à demanda que a empresa tem recebido. O investimento para isso deve girar ao redor dos R$ 200 mil. 

Com dez funcionários, as circunstâncias levaram a Fibravite a focar mais na terceirização neste momento. Mas, a empresa não perde de vista a missão para qual foi criada e segue desenvolvendo suas próprias marcas, tanto para o varejo quanto para o segmento profissional. Mesmo companhias maiores e com unidades industriais próprias têm recorrido à terceirista para a produção de itens mais especializados e de menor volume. 

O fato de estar atrelada a uma rede de salões oferece uma vantagem competitiva e tanto para a companhia das irmãs Mesquita. "Ali nós conseguimos antecipar tendências e olhar para os problemas e tratamentos que têm sido mais recorrentes", aponta Ieda. 

Multicanal mesmo
Criada por um engenheiro químico colombiano apaixonado por perfumes, a WU Cosmetic Care acabou ganhando relevo graças ao lançamento, 21 anos atrás, de um reparador de pontas comercializado no varejo. O produto alçou a empresa a uma posição de destaque no varejo cearense e, mais tarde, por toda a região Norte/Nordeste. Para reforçar sua presença nos clientes, a WU seguiu lançando alguns itens de grande apelo para o canal na região, como água oxigenada e os próprios kits Banho de Lua. Ainda hoje o varejo responde por mais da metade das vendas da companhia, que opera principalmente via grandes distribuidores. Os produtos da marca também podem ser encontrados em todo o Brasil nas farmácias da Pague Menos.

Mas o sonho da perfumaria não foi esquecido. E ele não combinava com o varejo. Por isso, a empresa acabou entrando na venda direta por catálogo, modelo por meio do qual pode passar a oferecer uma linha de perfumaria fina para os consumidores, além de outros produtos de beleza, como itens de tratamento corporal e capilar. E justamente os produtos para os cabelos chamaram a atenção dos consumidores. "As pessoas começaram a pedir que lançacemos mais produtos para os cabelos da marca WU, porque elas haviam achado o produto muito bom", conta Vicente Sanford, filho do fundador Pablo Neira e diretor da WU. Com base nesse feedback, a empresa resolveu fazer uma aposta ousada. Já que as pessoas acharam o produto tão bom, por que não investir e desenvolver uma linha para que é realmente a referência em cabelos: o profissional? 

Dito e feito. A WU, que já operava no varejo e na venda direta, abriu mais uma frente de distribuição com o lançamento de uma linha vendida exclusivamente para os salões de beleza. Obviamente a empresa tinha boas expectativas em relação ao projeto. Mas os resultados aconteceram de forma mais rápida do que os dirigentes esperavam. Hoje, são 150 distribuidores que atendem aos cabeleireiros do Norte e Nordeste e oferecem um portfólio que se situa numa faixa de preço intermediária, próximo de marcas como as mineiras Mutari e Maxiline. Para sustentar o equilíbrio, o diretor da WU explica que chega a comprimir um pouco as margens da linha profissional para conseguir manter o preço, oferecendo um produto de melhor qualidade. E a presença nos salões tem servido para alavancar também a própria venda do portfólio de venda direta nesses pontos de venda. "Temos alguns produtos na linha profissional que são de manutenção e que os salões vendem para os seus clientes, e eles têm aproveitado e incorporado os perfumes e outros itens do catálogo de venda direta para ampliar essa oferta", comemora Vicente. Somadas, as vendas dos dois canais estão quase no mesmo nível das vendas realizados no varejo, embora do portfólio de mais de 150 SKUs da companhia, menos de 10% deles são distribuídos no varejo.

Embora nos três canais todos os produtos estejam sob o guarda-chuva da marca WU, sem distinção, Vicente diz que os produtos destinados a cada canal têm características muito próprias, o que na visão do empresário, evita confusões entre os consumidores dos canais. Nesse momento, uma completa repaginação no visual da marca está sendo empreendida, redesenhando todas as linhas da empresa, em todos os canais. Vicente ambiciona fazer da WU a marca regional com a maior presença digital entre os profissionais de beleza. 

Como se não bastasse a atuação em três canais de distribuição distintos, a WU está apostando em uma nova frente de negócios: a terceirização. A companhia não está encarando a entrada nesse novo segmento como uma forma para simplesmente ocupar uma eventual ociosidade da marca, mas sim como algo realmente estratégico e que não vai interferir no avanço da produção dos seus produtos. Vicente diz que se as expectativas para a área se concretizarem, a empresa pode estudar o investimento numa nova unidade industrial, apenas para atender aos seus parceiros, que hoje incluem grandes varejistas do Ceará.

Por enquanto, o único investimento previsto é a chegada de dois novos reatores na planta da empresa. Mais recentemente, a unidade recebeu melhorias, como a construção de dois novos laboratórios. A empresa também qualificou sua operação com a certificação ISO9001. Para este ano, a expectativa da WU é de avançar 18% em relação a 2017.

Perfumando os ambientes
A história da Perfumaria Moreira no mercado de Perfumaria e Cosméticos soma mais de meio século. A tradicional loja da marca no centro de Fortaleza funciona como um atacarejo de fragrâncias, embalagens e outros itens para pessoas físicas e pequenos empreendedores que querem criar seus próprios produtos, num modelo bastante conhecido e presente em todo o Brasil. O negócio segue forte até hoje. Mas, em 2010, observando o avanço de um mercado que de alguma maneira os controladores da Perfumaria Moreira sabiam que existia, migraram para a perfumação de ambiente. E esse espaço não era ocupado por ninguém no mercado cearense. "As pessoas aqui gostam de sentir um bom cheiro ao entrar em casa, elas associam o bom cheiro à limpeza, à qualidade. Se o cheiro é gostoso, o produto é bom", diz Ricardo Moreira, sócio da Perfumaria Moreira. A empresa já atuava nesse negócio dentro da própria loja de atacado, mas era algo muito mais ligado ao artesanato da perfumaria, que não permitia seguir uma trilha de crescimento.

Ao se decidirem por entrar de verdade na categoria, os Moreira não encontraram ninguém para produzir os produtos, e resolveram sair de trás do balcão e montarem eles mesmos uma fábrica para fabricar esses produtos. Com a inauguração da fábrica do grupo, a Perfumaria Moreira passou a atender a diversos clientes que começaram a oferecer dentro de suas lojas, difusores de aroma e águas perfumadas produzidos com suas respectivas marcas. Em pouco tempo, a companhia passou a atender clientes de diferentes segmento do varejo de moda, cama, mesa e banho. 

Crescer com o negócio de terceirização é um dos focos de crescimento do grupo atualmente. Ricardo lembra que os clientes têm se mantido fiéis e que dos que desenvolveram projetos com a empresa, apenas um deixou de comprar, até porque ele fechou a sua loja, segundo o empresário. 

Com uma fábrica para suportar o desenvolvimento, o grupo também aproveitou para criar a sua própria marca de perfumação. Em 2013, nasce a Debora Moreira, que oferece diversas opções de fragrâncias e emblagens em produtos de perfumação de ambiente, sabonetes e produtos de banho, hidratantes, deo-colônias e até Eau de Parfums, comercializados exclusivamente na loja da marca, no bairro da Aldeota, região nobre de Fortaleza; e numa store-in-store dentro da loja da Perfumarias Moreira no centro. Além do público final, o ponto de venda atende muito ao segmento corporativo, que encontra na loja diferentes opções de mimos para presentar clientes especiais.

Para a empresária Debora Moreira, que dá nome à marca e é irmã de Ricardo, o desafio atual do negócio é torná-lo mais conhecido e gerar mais tráfego para a loja e experimentação. "Quando a pessoa vem e compra uma vez, ela não deixa mais de comprar", conta. Na loja, é possível encontrar produtos de alto padrão por pouco mais de R$ 20 até Kits Elaborados e com embalagens exclusivas por menos de R$ 150. Isso torna a marca uma boa opção para presentear.
O viés de presente ajuda a explicar também o balanço mais favorável do mix para o segmento de perfumação de ambientes. As fragrâncias de casa tendem a ser mais fáceis de escolher, mais acessíveis do ponto de vista olfativo, como a lavanda inglesa, um campeão de vendas da marca e que oferece baixíssima rejeição. A empresária afirma que vê muita gente trocando o perfume de uso pessoal por um perfume de ambiente na hora de presentear por não saber se a fragrância da deo-colônia ou do Eau de Parfum será do gosto do presenteado.

Por enquanto, os planos de expansão da Debora Moreira vislumbram a abertura de mais lojas próprias da marca. Ir ao varejo multimarca não está nos planos da empresa, ao menos nesse momento. 

Apesar do apego ao "cheiro", a perfumação de ambiente ainda é um fenômeno novo no Ceará e, tal qual como na maior parte do Brasil, os consumidores ainda estão aprendendo a valorizar esses itens. "De dois anos para cá que vimos as pessoas despertando para os difusores, muita gente ainda não sabe como usar os produtos. Mas, a gente percebe o crescimento pelo resultado da loja. Mais pessoas querem entrar em casa e sentir um bom perfume. Abrir o armário e sentir as roupoas perfumadas. Tudo isso está crescendo", comemora Debora. E, para um povo que adora se perfumar até para dormir, é de se esperar que mais cearenses queiram que o seu lar exale um cheirinho tão gostoso quanto o do povo local. 


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