Bisnagas para cosméticos: Implícita, mas objetiva

Pode não parecer, mas a inovação se faz presente em uma embalagem como a bisnaga. Pelo menos é o que garantem fornecedores deste componente, que prezam pela qualidade e objetividade  


 
Não tem jeito. Todos a querem e a exigem em qualquer tipo de produto, independentemente do segmento. Estamos falando de inovação, atributo indispensável para um item que foi lançado e que deseja triunfar em um mercado amplamente concorrido. Mas é perfeitamente compreensível que nem sempre é possível oferecê-la por uma série de questões, sendo a maior delas o investimento. O fato de inovar pode residir tanto no resultado que o conteúdo proporciona – muitas vezes fruto de uma matéria-prima inovadora –, como também pode vir de uma embalagem que realmente traga algo de novo e que tenha uma função agregadora na categoria em questão. Em embalagem, determinados componentes até conseguem apresentar inovações com uma certa frequência; mas, em outras, essa missão é um pouco mais complexa.

Neste segundo grupo mencionado, podemos inserir as bisnagas, um componente muito utilizado em diversas categorias do mercado de beleza, mas que possui alguma dificuldade em inovar e, consequentemente, diferenciar-se. Entretanto, mesmo que visualmente as opções parecem semelhantes realmente, fornecedores deste componente que atuam no segmento cosmético asseguram que existe sim inovação nesta embalagem, e isso tanto no processo de produção quanto no resultado final. Fato é que, como inovação é uma das principais exigências dos consumidores atualmente, a indústria cosmética e os fornecedores de embalagem precisam rebolar para encontrar meios de apresentar este querido atributo.

Fazendo por onde
Os tubos de bisnagas apresentam uma boa variação em termos de tamanho. Isso já possibilita que diversas categorias usufruam deste tipo de embalagem. Em muitas delas, a exigência por diferenciação é mais ampla do que outras. Para algumas, somente o fato de ser diferente de um concorrente, mesmo não sendo inovador, já é suficiente. Já em outras, é preciso mesmo inovação. E para consegui-la, fornecedores indicam diferentes meios para isso. Paulo Medeiros Jr., diretor Comercial da Embale Bisnagas, reconhece que, pelo fato de as bisnagas serem tubos, fica difícil conseguir mudar seu formato. Mas ele acredita ser possível fazer algo diferente e inovador na tampa, no bico ou no sistema de selagem de fundo, por exemplo. “Essa questão da selagem não compete a quem fabrica e sim a quem envasa. No caso da Embale, selamos cerca de 70% das que produzimos, então conseguimos fazer algumas inovações, como com selagem em curva ou em onda. No caso de tampas, é possível inovar fazendo moldes novos, apresentando novas opções”, sugere.

Paulo recorda que, há quatro anos, sua companhia trouxe um equipamento para Decoração Flexográfica com Serigrafia Simultânea, que permitiu fazer numa embalagem plástica decoração num nível gráfico, ou seja, imprimir uma foto. “Isso foi muito bem aceito e criou-se uma série de soluções para problemas que os nossos clientes de cosméticos queriam apresentar ao consumidor na sua forma de rotulagem, que não podia ser feito em bisnaga”, diz. Resumindo, o dirigente declara que a inovação em bisnagas pode ser feita com os componentes e na variedade.

A visão de Gustavo Melo, gerente de Marketing da Coesia – grupo de empresas e soluções industriais, é um pouco mais ampla. Para ele, sozinho, ninguém consegue inovar em uma embalagem como são as bisnagas. “Acredito que a inovação esteja totalmente ligada com a integração da cadeia, ou seja, só o fornecedor de máquina ou o de bisnaga é difícil inovar. A combinação de tudo isso, mais o end user, é o que vai gerar a inovação. Temos diversos casos em que há inovação, mas é sempre um trabalho de seis ou oito mãos”, considera.

Por sua vez, Fábio Yassuda, Chief Commercial Officer da C-Pack, discorda da afirmação de que é difícil conseguir inovação e diferenciação em bisnagas. Para justificar sua posição, ele cita as evoluções que sua companhia conseguiu realizar com esta embalagem ao longo dos últimos anos. “Num primeiro momento, atributos simples podem ser implementados com a própria evolução técnica dos equipamentos. Por exemplo, quando a C-Pack iniciou em 2003, a melhor máquina de impressão off set dispunha de no máximo cinco cores. A tecnologia foi evoluindo e hoje o recurso contempla até oito cores, bem como, já permite também que uma destas cores seja utilizada como calço. Não traz inovação ao produto, mas com certeza cada vez mais as bisnagas passaram a apresentar um resultado visual muito mais rico”, explica.

Inovação, para Jardel J. Saraiva, diretor Comercial da Globoplast, é um desafio existente em qualquer mercado, mas principalmente no caso de HPPC em que a compra é, na maioria dos casos, influenciada por atributos visuais, e isso força toda a cadeia do setor clamar por inovação e diferenciação. “A Globoplast acredita que as oportunidades de inovação no nosso mercado estão em dois grupos; nos nossos clientes, e o consumidor final, que utiliza a embalagem e sentem os benefícios ao usar o produto. Para os nossos clientes, na maioria dos casos, significa ter uma bisnaga diferenciada pelo formatos da selagem, textura, impressão, tipo de tampa, etc., ou até quaisquer outras sugestões que tragam algum tipo de benefício no manuseio na linha de envase, ganho de logística, maior destaque no PDV, etc. Já para o consumidor final, clientes dos nossos clientes, a tarefa é mais árdua. A diferenciação pode ser: ergonômica, funcional ou com algum apelo social, como no caso em que a Globoplast desenvolveu e patenteou o sistema de impressão de caracteres em Braille e logomarca obtida com alto relevo diretamente na estrutura do plástico, sem utilização de tintas”, contextualiza.

Exemplos inovadores
A indústria cosmética também busca fazer sua parte para dispôr ao mercado bisnagas inovadoras, sempre pensando no consumidor final. A Embelleze, por exemplo, lançou recentemente a família Novex Pra Bombar, com shampoo e condicionador em bisnagas que foram desenvolvidas de acordo com uma demanda das consumidoras. “As embalagens em bisnagas representam valor para a consumidora. No caso do Projeto Pra Bombar, a inovação está em oferecer a ela, com segurança, um produto que surgiu de uma demanda das próprias mulheres. Em consequência da carência do mercado, a consumidora acaba recorrendo a fórmulas próprias, pouco seguras. Detectar esta necessidade e trazer uma solução em escala industrial sem abrir mão da qualidade e segurança, é nossa principal inovação. Também inovamos a partir do uso de uma linguagem mais coloquial, jovem, que reflete aquilo que as mulheres buscam e desejam”, situa Fabiana de Luna, gestora de Marketing da Embelleze, revelando que a empresa fluminense recorreu também às embalagens em bisnagas especialmente em produtos de valor, como o Novex Blindagem Térmica e a Blindagem de Argan.

Enquanto isso, uma outra companha situada no Rio de Janeiro, a Yenzah, aposta em formatos de bisnagas exclusivos, visando a diferenciação. “Nosso formato é exclusivo e diferente do que há no mercado. Patenteamos um formato que traduz o ícone da nossa marca, para diferenciar e criar uma conexão com a marca”, cita Rodrigo Geocks, CEO da Yenzah, que avalia que qualidade das bisnagas existentes no Brasil é boa, mas acredita que há oportunidade em redução de custo e de novas formas de impressão. Quem também busca diferenciar-se no mercado é a marca Giovanna Baby. “Somos conhecidos por nossos detalhes e acabamentos. Por isso, procuramos sempre buscar opções diferenciadas. Atualmente, utilizamos bisnagas na nossa linha de Loção Hidratante, e as embalagens possuem cores especiais e rótulo metalizado. Essa combinação gera diferenciação no ponto de venda e dá mais identidade à marca ao entregar algo inovador”, posiciona Bárbara Salem, supervisora de Marketing de Produto.

Assim como fez a Embelleze, a Bemis – que fornece bisnagas, entre outros tipos de embalagens – também procurou dar ouvidos ao consumidor e, ao mesmo tempo, almejou a inovação. Como exemplo, Andreisa Rodrigues, analista de Marketing da fornecedora de embalagens, cita a bisnaga utilizada pela Pantene neste ano, que saiu da tampa fliptop e agora vem com bico aplicador. “Era um produto com conceito dose única, porém a P&G fez uma pesquisa com consumidora e, quando estourava a tampa anterior, ela sempre queria usar mais de uma vez e aí ela tentava encaixar novamente a tampa, mas sempre saía e chegava a derramar na bolsa”, indica.

Com o intuito de estar cada vez mais próximos dos parceiros de toda a cadeia produtiva, a Coesia possui cases em que suas máquinas trouxeram inovação às empresas e ao mercado cosmético. Uma delas produz uma bisnaga – que foi adotada pela L’Oréal na Indonésia –, que conta com uma tecnologia que permite acondicionar dois produtos diferentes em um mesmo frasco. Há também uma outra bisnaga, que possui duas câmaras independentes, mantendo os conteúdos separados. “Nesta, então, envaso dois produtos, selo e tenho um controle na saída. São quatro estações, que você vai girando e estação externa vai liberar os dois produtos, ou um ou outros, ou mais de um do que de outro. Então, este é um tipo de inovação que está ligado à máquina/equipamento e ao desenvolvimento da embalagem. Este produto já está no mercado asiático”, aponta Gustavo. Há ainda uma outra bisnaga, já presente nos Estados Unidos e na Europa, que também acondiciona dois produtos, mas realizando um efeito swirl. Por último, uma outra bisnaga, com dois produtos em duas câmaras também, só que uma externa e outra interna. “A diferença desta é que não há o controle da saída, da dosagem, então, quando apertar, sairá o dois”, complementa o gerente de Marketing, que revela que, em um curto prazo, uma dessas tecnologias chegará ao Brasil.

O que ainda atrapalha
Andreisa, da Bemis, observa que, mesmo que a bisnaga possua algo de inovador que possa até servir como ponto de atração em ponto de venda, ela ainda fica muito “escondida” atrás de um cartucho. Sendo assim, a companhia de origem norte-americana tem procurado encontrar soluções junto às empresas para eliminar os cartuchos e usar a bisnaga como uma embalagem final. “Hoje em dia, a bisnaga pode ser usada como uma embalagem primária, como um item que chama para a venda. Colocar as bisnagas no checkout também é muito interessante. Também dá para colocá-las nas gôndolas, pois elas são laminadas e não amassam mais, como acontecem com as de alumínio”, considera a profissional.

Ela também discorre acerca das questões do lead time existente com este componente e da preparação para eventuais “booms” com determinados produtos. De acordo com Andreisa, a Bemis está vivenciando um estouro de vendas com as bisnagas fornecidas para Pantene e que terá de aumentar a produção em 50% para atender à marca da P&G, mas garante que estão preparados. Já no caso da Embale, a empresa trabalha hoje com clientes de pequeno e médio porte. Para Paulo Medeiros Jr., isso se deve a uma escolha estratégica da companhia. “Quando iniciamos, começamos a trabalhar com a Avon e outros grandes clientes. Optamos então por trabalhar com pequenos e médios clientes para que pudéssemos ter uma prospecção e uma difusão melhor da bisnaga no mercado. Se ficássemos atrelados às grandes empresas, estaríamos fornecendo unicamente a eles e não estaríamos com a nossa base de clientes tão forte”, relembra o diretor Comercial, que aponta ainda que lead time da empresa não ultrapassa os 30 dias. Garante também que, mesmo havendo um boom de algum produto no segundo semestre, por exemplo, seu lead time não será comprometido. “Mantivemos essa rotina durante os 20 anos. Se viermos a fechar um contrato com alguma empresa grande, teremos de ter a capacidade disponibilizada sem comprometer o crescimento habitual dos clientes que temos.”

A questão do lead time junto aos fornecedores de bisnagas é motivo de reclamação por parte de Fabiana de Luna, da Embelleze. “O lead time não é dos melhores e, algumas vezes, é um impeditivo junto com a otimização da produção que não pode perder escala. Trabalhamos em parceria com nossa rede de fornecedores e temos um bom atendimento”, rechaça a gestora de Marketing, que também crê que as opções de bisnagas existentes no mercado brasileiro poderiam ser melhores. “Por tratar-se de uma embalagem mais cara, as opções oferecidas pelo mercado são em menor escala e é mais difícil encontrar. Mas o mais importante é entregar valor e qualidade, além da estética que precisa ser um ponto alto”, pede.

Fábio Yassuda, da C-Pack, reconhece que o lead time de sua companhia vem subindo, mas isso devido à procura que vem aumentando e à oferta de capacidade produtiva, que não está mais recebendo investimentos. “A própria C-Pack postergou por dois anos a vinda de duas novas linhas de produção que poderiam já ter agregado sete milhões de bisnagas/mês à sua capacidade atual (14 milhões bisnagas/mês). O que tem atrapalhado? A conjuntura econômica e política brasileira. A indústria de bisnagas requer investimentos altos e de retorno de longo prazo”, acredita o Chief Commercial Officer.

O lead time atual da Globoplast, segundo Jardel J. Saraiva, está em 45 dias, mas geralmente oscila ao longo dos meses do ano, sendo inferior a 40 dias no primeiro semestre e chegando a 60 dias no segundo semestre. “Atipicamente no ano atual, nosso lead time se mantém em 45 dias, linear de janeiro a maio. Quando o cliente nos passa uma visão mais alongada de pedidos, a fábrica também se programa de forma a produzir lotes com maior aproveitamento de diâmetros e com grade de cores, otimizando os processos, minimizando os prazos de entrega”, garante o dirigente, que diz que a capacidade atual da Globoplast com bisnagas é de 45 milhões de tubos/ano.

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