Em busca de coerência e criatividade no uso dos tipos

A evolução da tecnologia revolucionou e facilitou a vida dos designers. Porém, também transformou o processo de desenvolvimento de embalagem mais homogêneo, com o uso de fontes pouco criativas


Quantas marcas não fizeram história no mercado cosmético brasileiro por conta de um detalhe muito significativo e marcante na embalagem: a tipografia?

Antigamente, o processo de seleção da tipografia era tão importante para representar a essência de uma marca, que os designers possuíam a gigantesca responsabilidade de criar uma letra nova, inovadora, criativa, que reunisse em traços e linhas a mensagem que determinado produto queria passar.

Porém, a revolução tecnológica e o desenvolvimento dos recursos da informática facilitou o trabalho dos designers, disponibilizando uma variedade de novas fontes em sites especializados na internet, a um clique de distância. Entretanto, toda facilidade tem seu preço, deixou o processo de criação de embalagem mais homogêneo, além de abrir espaço para uma série de profissionais sem o expertise necessário para compor uma peça coerente, e que, muitas vezes, são incapazes de encontrar sintonia entre a marca e a fonte utilizada.

“A tecnologia abriu muitas portas para se encontrar uma tipologia, basta uma rápida busca pela internet, e encontrará centenas de sites com tipologias bem interessantes”, diz o designer Paulo Pereira, dono da Prodesign, profissional que atua há mais de 20 anos no mercado. “Mas ao mesmo tempo, com a popularização dos softwares para desenvolver uma fonte, vários leigos no assunto têm desenvolvido alguns typos sem nenhum critério. Podemos encontrar fontes desproporcionais, com diferentes espaçamentos entre letras e por aí vai”, completa ele.

Já Rodrigo Madalosso (na foto abaixo), gerente de desenvolvimento do Grupo Boticário, afirma que nem tudo mudou com a chegada da tecnologia para o desenvolvimento de uma embalagem. Ele explica que a empresa em que trabalha é extremamente criteriosa na criação ou escolha da tipografia dos produtos, e que tanto companhia quanto as agências parceiras devem estar alinhados ao briefing. “As agências de design, parceiras do Grupo Boticário, fornecem diversas sugestões de layout, por vezes são criações exclusivas e também fontes que podem se tornar ou não exclusivas para cada marca, dependendo do briefing e da ideia de concepção. Hoje, há também sites especializados em fontes, em que diversos designers criam fontes próprias, e disponibilizam para o mercado como produto de seu trabalho”, explica.

Ainda segundo ele, as marcas do Grupo enviam uma série de opções para as agências, além de buscar uma criação exclusiva ou de pouco uso em parceria com renomadas agências de design.
Porém, nem todas as empresas do segmento possuem o posicionamento do Grupo Boticário. De acordo com Paulo, além de diversos leigos que entraram no mercado, o que leva a alguns trabalhos de baixa qualidade, ele também atribui uma parcela da culpa as próprias empresas que nem sempre buscam a inovação. “Sinto que empresas estão sempre tentando fazer algo parecido com seu concorrente, deixando pra trás o primordial, o design certo para se comunicar com o público-alvo”, destaca o designer.

Como resgatar tais atributos?
O profissional da Prodesign acredita que somente o critério, além de muita pesquisa, é capaz de produzir embalagens mais autênticas, com fontes mais criativas. Ele ainda acrescenta que é preciso estudar detalhadamente o briefing da marca, desvendar seu conceito e escolher a fonte mais adequada para se comunicar com o público-alvo do produto.

Rodrigo exemplifica a questão levantada acima por Paulo Pereira. Segundo ele, os casos de Lily Essence e Malbec – duas marcas que estão sob o mesmo guarda-chuva, ou seja, o de O Boticário – possuem desenvolvimentos completamente diferentes, pois são destinados a público-alvo diferentes. “Uma fonte com características mais delicadas, por exemplo, não poderia ser usada num Malbec, fragrância masculina da unidade de negócio O Boticário. Em contrapartida, a fonte de Lily Essence, fragrância da mesma marca, tem características típicas de uma caligrafia feminina”, observa.

O ponto central é que a elaboração de um produto vai de uma ponta a outra da cadeia; desde a concepção de uma fragrância ao desenvolvimento da embalagem até a forma de se comunicar com seu público-alvo. Alcançar a criatividade durante o desenvolvimento de um produto é fundamental atualmente, entretanto, ser coerente com ideia inicial do produto é peça-chave para que ele seja um sucesso; e nesse caldeirão em que a receita para o sucesso é preparada, a fonte da embalagem é um ingrediente importante.

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