Especial P&D: avançar, sempre

Inovação é vital para a evolução da indústria cosmética. E os cientistas e profissionais de P&D têm a chave das possibilidades que ela pode proporcionar nas mãos. Como girá-la na fechadura certa? 



O  que pensam alguns dos principais nomes da área de Pesquisa & Desenvolvimento da indústria cosmética brasileira sobre temas tão controversos quanto a inovação e as tendências que o setor deverá seguir num futuro não tão distante assim? Que caminhos seguir, como criar difenciais sem ferir as normas regulatórias (que precisam ser revisadas, é verdade) e garantir a eficácia e a segurança do produto para o consumidor? Por que é tão importante aproximar mais a pesquisa realizada pelos meios acadêmicos da indústria, ainda temerosa em adotar a inovação? Fizemos estas e outras perguntas para Ada Mota (Adcos), Alessandro Mendes (Natura), Cristiane Ferrari (Jequiti), João Hansen (Avon),  Richard Scwarzer (Grupo Boticário) e Sônia Corazza. E suas respostas foram bem claras e objetivas. Confira!



Como você classifica o nível de atualização dos profissionais que trabalham nas áreas de P&D das principais indústrias de cosméticos no Brasil hoje em dia?
JOÃO HANSEN: Para responder a essa pergunta, precisamos entender como está o cenário. O Brasil, hoje, está atraindo um investimento em P&D de empresas multinacionais, que têm seus centros fora do País, como é o caso da L’Oréal, que inaugurou seu Centro de Pesquisa no Rio de Janeiro. Por outro lado, você tem empresas nacionais que estão seguindo a mesma trilha, como é o caso d’O Boticário, que abriu, recentemente um novo centro maravilhoso de P&D. Isso é uma necessidade, até pela característica do consumidor que, hoje, quer produtos cada vez específicos. Então, o que a gente vê é uma potencialização e uma diversificação do nível de conhecimento do profissional, que está cada vez mais alto. Ao mesmo tempo, está aumentando o nível de especialização dessas pessoas para atuar na área de P&D no Brasil, e de qualificação para desenvolver produtos com novas tecnologias, como é o caso da biotecnologia. Muitas vezes a gente quer atrelar esse tipo de profissional a uma carreira: “Ah, tem que ser químico, biólogo”. Mas, não: tem que ser alguém que tem a ciência enraizada dentro do seu ser. Esse é o cara que vai, pesquisa, fica, de fato, como um “rato” de laboratório. E é  impressionante ver o nível de especialização que um cientista tem, que, às vezes, não tem nada a ver com a formação universitária dele. Mas ele vai para uma área e acaba se especializando, se aprofundando, a ponto de se tornar uma PhD naquele assunto específico, que, necessariamente, não tem vínculo algum com aquilo que ele estudou na faculdade.

ALESSANDRO MENDES: Para responder essa pergunta, é importante separar o P&D em suas diversas responsabildades. Temos o caso do desenvolvimento básico, no qual pensamos logo na formulação. Só que o time de desenvolvimento tem que ser muito maior do que isso, porque desenvolvimento é mais do que fórmula: envolve fragrância, embalagem e, ainda outros aspectos, como comprovação de segurança e eficácia, que não são funções do cientista clássico de bancada. Por isso, normalmente, na indústria cosmética a gente contrata vários tipos de profissionais de alto nível, como farmacêuticos, químicos, engenheiros de alimentos, biólogos, enfim, gente especializada para compor o time de P&D.

SONIA CORAZZA: Estou assistindo, atualmente, uma super especialização dos profissionais de P&D. Eles deixaram de ter uma visão geral dos processos, o que é um pecado, mas, em compensação, estão se transformando em craques em suas áreas específicas de atuação. Em termos de perfil, são biólogos, farmacêuticos, químicos e alguns engenheiros. Estes, embora sejam poucos, são muito importantes para fazer uma ponte entre o laboratório e a fábrica, para definir a parte operacional do processo. Recentemente, fiz um trabalho para um fornecedor de matérias-primas para a indústria de cosméticos no Brasil para identificar quem é o profissional de P&D hoje em dia. O resultado é uma pirâmide, em cuja base temos cerca de 8.000 “cozinheiros”, ou seja, técnicos que aprenderam a misturar e manipular ingredientes para fazer coisas mais básicas, como produzir um creme ou um produto para cabelo. No meio da pirâmide, principalmente nas empresas de médio porte, temos profissionais mais técnicos, que além de manipular fórmulas com a ajuda dos fornecedores de ingredientes, são capazes também de fazer o controle de qualidade da matéria-prima e do produto final. Já no topo da pirâmide, notadamente em empresas grandes, temos gente especializada em áreas como cabelo, proteção solar, produtos anti-idade etc. E estes, são muito poucos: não mais do que 300 em todo o Brasil. É muito difícil achar esse tipo de profissional no mercado, e eles são muito caros.  

RICHARD SCHWARZER: Temos excelentes profissionais no Brasil, vários deles, felizmente, trabalhando conosco. E não teríamos objeção nenhuma em trabalhar com profissionais de fora do País também. Qualquer profissional altamente qualificado vai ser bem-vindo na indústria brasileira. No momento em que vivemos, no qual existe uma carência de profissionais brasileiros qualificados, essa pode ser uma das soluções para alavancar o processo de desenvolvimento em vários setores, incluindo o de cosméticos. O problema, é que ainda esbarramos na capacidade de assimilação desses profissionais, na burocracia para internalização desses estrangeiros. Mas, como disse, em função dos recursos que dispomos e pela qualidade de interlocução que teriam aqui dentro com nossos profissionais altamente gabaritados, isso seria muito bem- vindo internamente no Grupo Boticário.


E o que se pode dizer do nível de inovação que esses profissionais e a indústria vêm entregando ao mercado?
ADA MOTA: É um segmento que  vive de novidades e as interfaces entre as ciências médicas e farmacêuticas favorece muito a implementação de conceitos - antes  encontrados apenas em outros segmentos da saúde, voltados agora para saúde, beleza e bem-estar.

JOÃO HANSEN: Creio que quando o mundo busca inovação, se depara, hoje, com coisas que começaram a ser inventadas cinco, dez anos atrás. Quando você coloca no mercado produtos como os dermocosméticos, por exemplo, isso é resultado de um processo de inovação de longo prazo, que embute parcerias com fornecedores de matérias-primas e, também, com empresas do setor farmacêutico, colocando ali alguma coisa que, antes, era usada como medicamento, e que foi transferida para o setor cosmético, dentro dos parâmetros que a legislação permite. Creio que existe muita coisa de inovação que vem de fora, e tem alta tecnologia e alta pesquisa por trás dela. 

CRISTIANE FERRARI: Vemos uma evolução nos produtos e, cada vez mais, se vê uma diversificação de matérias-primas trazidas de  todo o mundo. Percebemos também a intensificação do desenvolvimento no mercado nacional de produtos da biodiversidade brasileira que estão sendo mais explorados e exportados para o mundo todo.

ALESSANDRO MENDES: O mercado brasileiro ganhou bastante relevância e ascensão nos últimos tempos. Por outro lado, as empresas que fazem P&D no Brasil são poucas. As grandes multinacionais instaladas há muitos anos por aqui, por exemplo, embora tivessem operações comerciais, não faziam desenvolvimento no Brasil até pouco tempo atrás. Hoje é que a gente vê algumas delas abrindo centros de pesquisas no País. Normalmente, quem sempre fez P&D no Brasil foram algumas poucas empresas brasileiras. Na Natura, temos um pipeline de projetos  bem estruturado, para que a gente tenha regularmente um percentual não só de novidades, mas com bastante inovação também. E inovação não necessariamente vem apenas do ponto de vista de uma fórmula, de uma embalagem... Ela pode ser conceitual. Natura Ekos foi uma marca inovadora há 14 anos, quando foi lançada, e continua sendo. Ela conta uma história diferente e inovadora. A inovação, além de vir de fontes de pesquisas técnicas, pode surpreender positivamente o consumidor também a partir de uma plataforma conceitual e de uma reflexão que captura um movimento social e se posiciona em relação a ele. Ou, então, em função do atendimento de uma necessidade específica do consumidor, mas com critério e bom senso. Fazer um desodorante que protege por 48 horas no Brasil não só não é inovador, como também não faz o menor sentido. Ninguém fica 48 horas por aqui sem tomar banho. Mas fazer uma reflexão sobre a cadeia da reciclagem, sobre a utilização de matérias-primas vegetais, isso, sim, pode ser inovador e tem muita relevância. Vale lembrar, apenas, que, como a indústria cosmética é super regulamentada no Brasil, há limites do que a gente consegue entregar de inovação em termos de benefícios em cosméticos.

SONIA CORAZZA: Infelizmente, o nível de inovação que a indústria brasileira de cosméticos consegue entregar atualmente ainda é bem sofrível. E falo isso com dor no coração, até porque atuo junto a grandes universidades e centros de pesquisa. O empresário brasileiro quando brifa o P&D costuma bater no peito e dizer: ”Sim, eu quero ser inovador!” Só que ele não banca o sacrifício de ser inovador em termos de tempo e dinheiro. Quando a gente fala de inovação, fala de cortar mato alto, de trilhar caminhos que nunca ninguém trilhou E isso é versus tempo, versus pesquisa, versus dinheiro. Assim, tem muito coisa da área acadêmica dentro de gavetas. E o Brasil acaba perdendo essas patentes, porque isso tudo fica no máximo dois anos nas gavetas, até ser vendido para grandes corporações internacionais e, depois, voltando para cá, reintroduzido a altos custos. Só no ano passado, a Unicamp vendeu 200 dessas patentes para grandes grupos estrangeiros. A indústria brasileira de cosméticos é muito temerosa em fazer a inovação de fato. Em meetings recentes no exterior, tive que escutar de fabricantes internacionais que a sorte deles reside no fato de que o Brasil ainda não se deu conta de que está no topo da pesquisa científica. Os empresários brasileiros ainda não se tocaram disso, abrindo espaço para eles, os estrangeiros, avançarem na inovação. Isso precisa mudar.

RICHARD SCHWARZER: Observando o cenário nacional,  entendemos que o nível de inovação é ainda contido no Brasil, muito em função da dificuldade que o empresário tem para suportar os riscos, que podem abalar o equilíbrio de seus negócios. Hoje, o governo dispõe de formas de fomento para pesquisa científica extremamente interessantes, mas vinculadas a grandes garantias, que não permitem ao pequeno empresário ou ao pequeno cientista ter acesso a elas. Isso tudo, sem falar nos grandes gargalos de infra-esturura, de burocracia e de outras exigências e carências que tornam muito difícil alguém estabelecer negócios e, ainda, correr riscos com a inovação. Mas, a grande mensagem que eu gostaria de deixar é que inovação não é um mito. Ela é algo concreto, que qualquer um pode realizar a qualquer momento, quando acredita que aquilo pode ser feito e transformado em realidade. E, para isso, é preciso mobilização, sair do plano das ideias e partir para a prática, utilizando os recursos que você tem à disposição no momento. O Boticário começou assim há 36 anos e não precisou do Centro de Pesquisas, que acaba de inaugurar, para construir sua história até aqui. Mas vai precisar dele para construir o que vem pela frente.


Como anda a interface entre a indústria cosmética e os grandes centros difusores de pesquisa, como as universidades?
ADA MOTA: Existem alguns núcleos de pesquisa que integram bem a pesquisa acadêmica aplicada a necessidade da indústria, seja na busca por novas matérias-primas, seja na busca por ensaios que favoreçam a avaliação da segurança e eficácia dos produtos. A prática diária na ADCOS é estreitar o relacionamento com os pesquisadores que nos prestam consultorias para o embasamento científico das  propostas de produtos e também  na condução das avaliações de performance dos mesmos.

JOÃO HANSEN: Dentro da empresa, é muito caro você ter especialistas em todas as áreas. O investimento exigido para isso é muito alto. Então, costuma-se fazer parcerias do tipo ganha-ganha com esses centros de pesquisa. Não posso falar pelas outras companhias, mas, na Avon, temos muitas parcerias externas, com centros que são especialistas em determinadas tecnologias, bem como com universidades. Não temos muita coisa aqui no Brasil, mas no exterior,  na Ásia, por exemplo, a Avon tem uma colaboração muito forte com esses centros de excelência em pesquisa.

CRISTIANE FERRARI: Já existe essa abertura. Porém, na minha opinião, isso deve se intensificar ainda mais no futuro. As empresas não necessitariam investir em equipamentos de alto custo e passariam a utilizar os equipamentos das universidades trazendo a tecnologia para dentro da indústria. Este processo seria benéfico para os dois lados. Para a indústria, por utilizar o serviço que a universidade dispõe de equipamentos e pesquisa e para a universidade, estando mais próxima da indústria, poderá entender melhor o consumidor e  desenvolver tecnologia para atender suas necessidades e desejos com maior rapidez. Outro ponto importante é flexibilizar o desenvolvimento das indústrias de médio e pequeno porte.

ALESSANDRO MENDES: Essa é uma grande discussão, porque, embora as universidades façam bastante pesquisa científica, isso resulta em poucas patentes. Por isso, a Natura faz uma aposta, já há bastante tempo em programas como o Natura Campus, um espaço de construção das redes de inovação da Natura com a comunidade científica acadêmcia, que realiza chamadas periódicas para recebimento de propostas de projetos colaborativos em ciência, tecnologia e inovação. Outra forma de cooperação são os dois hubs que a Natura tem fora do Brasil. Um deles fica em Paris, na França, e faz a conexão com centros de pesquisa e fornecedores de toda a Europa. O outro fica em Boston, nos Estados Unidos, e tem uma parceria com o Massachusetts Institute of Technology (MIT). Recentemente, também inauguramos um hub aqui no Brasil, o Núcleo de Inovação Amazônia (Nina), em Manaus. O espaço será de rede de estudos sobre itens nortistas, passando pelo fomento à pesquisa em cultura e sociedade, conservação e biodiversidade, florestas e agricultura, além de design de produtos e processos.

SONIA CORAZZA: Enquanto o empresariado brasileiro não tiver a consciência de que é preciso investir nessas parcerias, de verdade, tudo vai andar num processo bem lento. Só que a fila anda, e os centros de pesquisa brasileiros já estão contatando muita gente de fora, para oferecer essas novas tecnologias. Hoje, a referência de pesquisa em pele é a Coreia do Sul, até porque a cultura de tratamento de pele é muito arraigada. Eles são muito avançados por lá e têm muito interesse em soluções cosméticas inovadoras. O Brasil está avançando em parcerias com os coreanos, que vão acabar comprando muitas das patentes criadas por centros brasileiros de pesquisa.

RICHARD SCHWARZER: Vemos essa interface através de dois prismas. O Grupo Boticário tem um índice de absorção de estudantes de centros acadêmicos muito alto, e de aproveitamento elevadíssimo. Nesse contexto, a relação da empresa com as instituições de ensino é muito produtiva: colaboramos com elas, e elas nos fornecem profissionais bem qualificados. Por outro lado, a iniciativa do meio acadêmico de nos prover com soluções tencológicas ainda é muito baixa, talvez porque haja um desconhecimento das reais necessidades do meio industrial, relativas à pesquisa cientifica. Nesse âmbito, a aproximação deles seria bem-vinda e proveitosa. Mas é um processo que precisa evoluir muito ainda ainda. O que poderia acelerar e facilitar esse trâmite seria uma participação do governo de forma efetiva, no sentido não só de disponibilizar mais fomentos para a pesquisa científica, como também para aproximar o meio acadêmico da indústria.


Ainda falando sobre interfaces, como você vê o futuro da criação de produtos unindo ciência cosmética e medicina?
ADA MOTA: Acredito que não é uma realidade do futuro, pois ela já está presente há muitos anos. Como desenvolvemos produtos de tratamento para manter a saúde e beleza da pele nosso processo de desenvolvimento sempre se inicia pelo estudo profundo da patogenia do “problema” que se deseja tratar e dos mecanismos de ação das substâncias disponíveis para uso cosmético. Este procedimento se espelha nas práticas adotadas na pesquisa de medicamentos e terapêuticas médicas. Obviamente precisamos adequar as fórmulas à obter a  melhor performance dentro das limitações  legais impostas pelos órgãos regulatórios. Os nutracêuticos são uma tendência mundial presente há alguns anos no mercado Europeu e Norte Americano, que desponta no Brasil com certo atraso. Hoje são considerados suplementos alimentares, pois ainda não há legislação específica  que os classifique na categoria de “cosmecêuticos”. Devido a estas questões, penso que seu futuro ainda é incerto.

ALESSANDRO MENDES: Creio que essa interface se dará mais com a ciência farmacêutica, o que faz bastante sentido do ponto de vista científico. A questão é que tanto uma quanto outra são bastante regulamentadas em todos os países. Seja como for, creio numa aproximação cada vez maior entre esses dois campos. Se, no futuro, a atribuição da indústria cosmética de produzir cremes antirrugas ou antissinais vai deixar de existir – fazendo com que ela se concentre apenas na produção de itens de higiene pessoal –, deixando-a por conta da indústria farmacêutica, ou vice-versa, ainda não dá para saber.

JOÃO HANSEN: A união da cosmetologia com a dermatologia já é, e vai continuar sendo fundamental. Tanto é que todos os produtos são baseados no parecer do profissional de dermatologia, que já faz a avaliação, do ponto de vista médico, na pele do consumidor. Isso não é de hoje: faz muito tempo que profissionais da área médica estão atuando dentro do segmento cosmético. Mas ainda falta um trabalho um pouquinho mais forte, uma evolução do conhecimento científico. A questão regulatória também está um pouco estagnada, porque com a união cada vez mais estreita entre cosmetologia e área médica, a grande questão passa a ser como atualizá-la ou validá-la com as autoridades sanitárias.

CRISTIANE FERRARI: Essa interface está cada vez mais próxima. Os principais estudos de novos ativos estão baseados em pesquisas médicas, como a proteção do DNA mitocondrial. Cada vez mais, vêm dos estudos de medicina os novos ativos para tratamento de pele e cabelo, principalmente para cabelo, o que tende a se intensificar, buscando entender cada vez mais a fisiologia para obter ativos de maior eficácia. Neste âmbito, os estudos com relação aos nutracêuticos ainda são iniciais. Ainda é necessário mais pesquisa para termos produtos de alta performance e não só apelo de Marketing.

SONIA CORAZZA: Ciência cosmética e medicina estão muito próximas. Acabo de vir de um congresso realizado na Universidade de Milão, e por lá andam falando muito de cosmética genômica, de produtos do tipo “Just for you”. Aqui no Brasil, onde graças à miscigenação de raça temos uma riqueza de pele única, que ninguém tem no mundo, a cosmética genômica faz todo sentido. Estamos observando avanços em tudo para a confluência dessas duas especialidades. E isso faz com que a necessidade de fazermos um revisão regulatória seja ainda mais urgente. E ela precisa abranger metodologias, novas permissividades para concentração e qualidade de ativos, e por aí vai.


Quais as principais tendências, conceitos, tecnologias e metodologias que você vê no horizonte, e que deverão chegar no curto e médio prazo ao mercado?
ADA MOTA: Já há algum tempo que a busca por recursos renováveis está em pauta. A biotecnologia traz a sustentabilidade necessária para a criação de várias matérias-primas de alta performance, que  geram produtos  efetivos com uma ótima relação custo-benefício. No segmento estético, a associação de terapias combinadas com produtos e aparelhos também é uma tendência que se consolida tanto em clínicas como em ambiente domiciliar, com o uso  de home devices que potencializam os efeitos dos cosméticos.

JOÃO HANSEN: Não tenho dúvidas de que a biotecnologia ainda tem muito para dar, em termos de matérias-primas e processos. O que está acontecendo de maneira muito forte hoje é a necessidade de se ter um divisor de águas entre o que é um produto cosmético ou do que não é. Há produtos mais agressivos, que entregam benefícios, mas fogem do escopo e da definição de um cosmético, como é o caso daqueles que promovem mudanças nas camadas mais profundas da pele ou provocam uma mudança no comportamento do DNA. Como é que eu vou explicar isso para a autoridade regulatória que vai autorizar esse produto? E como você comunica isso para o consumidor? Nós já chegamos nessa situação divisora de águas para categorias mais específicas. Lembrando que o cosmético não serve para tratar nenhuma doença. Então, começamos a ter algumas complicações regulatórias para promover e informar o mecanismo de ação dessas novas substâncias. E isso deverá merecer atenção dobrada daqui para a frente.

CRISTIANE FERRARI: Existem muitas  oportunidades de chegada de metodologias e matérias-primas do mundo inteiro, com o objetivo de aprimorar o desenvolvimento dos cosméticos no Brasil. Vemos avanços em metodologias de processo de obtenção de materiais por via enzimática. Os testes in vitro já estão aí, porém com resultados um pouco aquem do esperado. Teremos oportunidade de utilizar o teste ex vivo, realizado por meio de biópsia do próprio ser humano, um material que seria descartável e poderá ser utilizado para avaliações toxicológicas e de performance do ativo, trazendo maior confiabilidade nas respostas sem utilizar animais e humanos.

ALESSANDRO MENDES: Falando de maneira macro, na parte técnica deveremos evoluir para o caminho da biotecnologia, com avanços na genômica e na proteômica, que são, respectivamente, o estudo dos genes e do conjunto das proteínas que compõe um organismo vivo. Mas, essa evolução também se dará em outras direções. A indústria cosmética deverá começar a participar de maneira ainda mais enfática das discussões para reduzir ou eliminar os resíduos sólidos. Na parte de metodologias de P&D, uma vez que os testes em animais serão definitivamente banidos – a Natura não os realiza desde 2006 –, creio que veremos crescer os testes em peles equivalentes, como nós já fazemos atualmente na empresa, em substituição aos testes em células in vitro. Em termos de insumos, deveremos adotar a diretiva da Europa e dos EUA, que não os trata mais como matérias-primas, mas, sim, como ingredientes, reconhecendo, em prol da segurança do consumidor, que uma substância que entra na fórmula comporta mais de uma fonte, não sendo, portanto, algo isolado. Assim, a origem dos ingredientes vai ganhar mais importância.

SONIA CORAZZA: Coloco muita fé nas membranas poliméricas de origem vegetal e natural, que vão atuar como uma segunda pele. Essa tecnologia já está pronta para ser comprada. Tentamos, por três vezes, emplacá-la em empresas nacionais, mas, infelizmente, não conseguimos. E, ao que tudo indica, deveremos negociá-la com uma empresa na Alemanha, na qual a cabeça do empresariado parece mais aberta para assimilá-la e ganhar muito com isso. Outro caminho pelo qual a inovação deve transitar é na tecnologia de nanosferização. Vale a pena enfatizar, ainda, que a gente, aqui no Brasil, tem oito mil quilômetros de praia. Ou seja, além da nossa flora em terra, que é maravilhosa, a gente tem uma flora marinha muito rica, que pode servir de campo para a pesquisa científica e nos prover uma gigantesca fonte de novos ativos. Ainda há poucos cientistas trabalhando nisso por aqui. Mas, se na Europa há muitos profissionais trabalhando com biologia marinha, porque nós, com essa facilidade de costa e de condições climáticas não podemos fazer isso também? Precisamos incentivar nossos cientistas a pesquisar nossos recursos marinhos. Certamente, muita coisa boa para a cosmetologia brasileira e mundial pode vir daí.

RICHARD SCHWARZER: O que vem pela frente nesses campos é difícil de dizer, porque é infinito. O grande fascínio do processo de pesquisa é que mesmo no insucesso, você pode chegar a uma nova descoberta. Há uma série de exemplos aí de que uma ideia errada pode gerar coisas muito boas. Temos, hoje, no pipeline de projetos do Grupo Boticário, uma série de macro temas, que podem se desdobrar e gerar inúmeros planos de trabalho no futuro. O grande cuidado que temos que ter é manter o foco dentro dos temas de principal interesse. Ideias surgem a todo momento. E essas ideias podem tirar você do seu foco principal. Temos parcerias com universidades para pesquisa biomolecular, que já derivaram para soluções utilizadas em cosméticos d´O Boticário, pela Eudora e pela Skingen. E, à medida que você vai se aprofundando em determinado tema, é natural encontrar novas possibilidade de aplicação. E isso pode se estender, no futuro, a todos os temas ligados à nanotecnologia, por exemplo. E mais: você pode associar tecnologias de outras áreas ao setor cosmético, como é o caso das tecnologias desenvolvidas para a indústria de alimentos ou de tecidos, cruzando realidades nas quais elas se falam. E é importante que os órgãos reguladores estejam atentos a isso. Hoje, as entidades regulatórias setorizam demais alguns assuntos, e muitas vezes, isso bloqueia a possibilidade de cruzamento de tecnologias. É preciso entender que, atualmente, a pesquisa científica ocorre em rede, e que determinado tema, que era setorizado no passado, hoje não é mais. O objetivo que o órgão regulador tem que ter é a proteção do consumidor, seja na fiscalização da veracidade do discurso que um fabricante de produtos promove, seja na segurança que ele oferece. O importante é que tudo seja comprovado para o consumidor e que o direito dele seja garantido.  E se você, como fabricante, consegue passar nessa fiscalização, dar essas garantias e, ainda, oferecer inovação para o consumidor, você cumpriu o seu papel e está dentro da lei.

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