Especial Pele: acne - o eterno problema

Apesar dos avanços obtidos pelas indústrias cosmética e farmacêutica ao longo dos últimos anos, a acne está longe de ser um problema solucionado para a população brasileira. A prova disso é que a categoria cresce constantemente, impulsionada principalmente por um novo perfil de consumidor


Uma pele de seda, livre de cravos e espinhas. Esse é um dos desejos mais profundos, em termos de beleza, de brasileiros de todas as idades e de ambos os sexos, e que tem levado cada vez mais consumidores aos consultórios dos dermatologistas, sob o olhar atento da indústria, tanto a cosmética quanto a farmacêutica. E ambas vêm se desdobrando para desenvolver produtos cada vez mais eficazes, com tecnologias inovadoras e texturas diferenciadas, para agradar a esses diferentes públicos. “Seguramente, a acne é, hoje, o principal motivo que leva as pessoas ao dermatologista, sendo que este profissional é o principal prescritor de produtos cosméticos ou farmacêuticos especializados em tratá-la”.

Nessa jornada incansável em busca de uma pele de artista de televisão, os médicos especializados em pele desempenham um papel fundamental. O País conta com um exército de 7 mil dermatologistas – número que só fica atrás dos Estados Unidos –, que, ao contrário dos médicos europeus, não se sentem ofendidos quando um paciente o procura para cuidar de um problema estético, e não têm vergonha de receitar produtos cosméticos para complementar os tratamentos feitos em consultório. “O fato é que a mulher brasileira de classe média, quando quer se embelezar,  procura o dermatologista. No Brasil, cresceu muito o número de empresas cosméticas focadas em trabalhar com esse profissional”, destaca Maurício Pupo, dermatologista e diretor técnico da italiana ADA TINA.

Porém, antes de começar a falar sobre esse mercado, faz-se necessário estabelecer algumas diferenças entre combate à acne e à oleosidade. Maurício, da ADA TINA, conta que na década de 1980, a indústria cosmética e farmacêutica se desdobrava para desenvolver produtos para acne severa, aquela que forma pústulas e deixa marcas bastante profundas na pele. “Mas, depois que a indústria farmacêutica trouxe para o mercado a Isotrotineína – um medicamento que elimina a acne em apenas alguns meses –, a indústria cosmética tem acrescentado a seu portfólio produtos que combatem a oleosidade, que diminuem a incidência de cravos e espinhas, bem como itens que limpam e tratam a pele”, acrescenta o executivo. 

Entretanto, apesar da descoberta da “cura” da acne severa, os dados do setor provam que a acne em si  ainda está longe de ser um problema resolvido e esquecido pelos brasileiros. Informações apuradas pela consultoria britânica Euromonitor revelam que o mercado brasileiro de produtos anti-acne só perde em tamanho para o dos Estados Unidos e o do Japão. E  faturamento deles no Brasil está longe de ser desprezível: nada menos do que US$ 198 milhões/ano, segundo dados de vendas ao varejo. Somente em 2012, o mercado assistiu um crescimento de 12% dessa categoria, considerando medicamentos e dermocosméticos, de acordo com estatísticas fornecidas pela Mantecorp.

Pele brasileira, o habitat perfeito para a acne
Segundo dados do IBGE, mais de 80% da parcela jovem no Brasil sofre com os problemas causados pela acne. Quais, então, são as características do País e do povo brasileiro que fazem de nossa pele um território propício para a disseminação desse problema?

As dermatologistas Carla Ganassim, formada pela Universidade de Medicina de Marília, que atua na cidade de Assis, no interior de São Paulo, e Valéria Campos, profissional graduada pela UNESP de Botucatu, que atende na cidade de Jundiaí, também no interior de São Paulo, respondem que a acne é causada, principalmente, por alterações hormonais. Por isso mesmo, costuma aparecer de maneira mais intensa durante a adolescência. Porém, características tipicamente brasileiras também contribuem para o seu surgimento: as altas temperaturas e o excesso de umidade geram um aumento no tamanho das glândulas sebáceas, que, consequentemente, produzem mais sebo, levando a um aumento da oleosidade da pele e, por tabela, ao aparecimento dos indesejado cravos e espinhas. “Esse tipo específico de acne, típico de países do Hemisfério Sul, é chamado de “Acne Tropical”. E, em nosso território, ela é mais comum em regiões equatoriais, tais como os estados da região Norte”, informa a Dra. Carla.

O estresse da vida cotidiana e a alimentação inadequada, que abusa de gorduras e doces, são dois outros componentes que, somados a outras variáveis, ajudam a complicar ainda mais a difícil equação do combate a essa comum afecção cutânea. “A forte incidência do sol, a cultura do bronzeado e a alimentação inadequada fazem com que a pele da brasileira necessite de cuidados específicos”, destaca Maurício Puppo, da ADA TINA. A opinião é compartilhada pela Dra. Valéria Campos, que lista ainda o alto consumo de açúcar como um dos vilões do combate à acne. “E o que é pior é que o consumo de alimentos com alto índice glicêmico aumentou bastante nos últimos anos, estimulando o aparecimento da acne”, explica.

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Face a essa combinação de fatores desastrosos para o combate à oleosidade, os brasileiros pedem somente uma coisas às indústrias que atuam no segmento: “Desenvolvam produtos com toque seco, por favor!” Maurício comenta essa solicitação especial: “Aprendi que no Brasil não tem como fazer um produto com sensorial nutritivo, nem que seja um anti-idade. Aqui, a indústria deve se concentrar no desenvolvimento de produtos com sensorial seco, que vendem muito mais. A gente tem que fazer tudo sequinho, porque a pele do brasileiro é muito mais gordurosa”, pontua o diretor da ADA TINA.  O gerente de produto da Stiefel, Paulo Simas concorda com o colega da Ada Tina, e fala um pouco sobre a importância do produto com toque seco: “O clima tropical, quente e úmido aumentam o desconforto associado à pele oleosa, sendo então um dos fatores determinantes para o crescimento observado no mercado de limpeza e controle da oleosidade”, destaca.

Nesse contexto, os produtos multifuncionais também ganham espaço. Além de serem mais práticos e se adaptarem melhor ao estilo de vida frenético das pessoas, produtos que combinam tratamentos diversos num único item acabam evitando que o paciente utilize um outro cosmético com textura oleosa, como um anti-idade ou um protetor solar, por exemplo. “Hoje, a tendência, por conta da vida corrida, é a diminuição  do número de produtos utilizados. Assim, o consumidor prefere itens que combinam tratamentos, tais como anti-acne, anti-idade e proteção solar. Isso porque não adianta nada o paciente utilizar um produto anti-acne para combater a oleosidade, e usar também um anti-idade gorduroso”, contextualiza a Dra. Carla.

Adultos no radar
Ainda hoje, quando pensamos em produtos anti-acne, vêm logo à nossa mente linhas direcionadas, exclusivamente, ao público adolescente, que, até alguns anos atrás, era a maior “vítima” do problema, por conta das mudanças hormonais típicas da idade. Por essa razão, nomes simbólicos como Clean&Clear, da norte-americana Johnson&Johnson, Axepsia, do laboratório mexicano Genoma, e Aquaclin, da Galderma, parecem “obrigatórios” como referência desse tratamento. “Antigamente,  acreditava-se que a acne era um problema restrito aos adolescentes. Hoje, a gente sabe que não é bem assim”, pontua a Dr.Valéria Campos.
A médica segue dizendo que, atualmente, os dermatologistas já conhecem e estudam a chamada “Acne da Mulher Adulta”, que atinge mulheres com mais de 25 anos, no mundo todo. Segundo a dermatologista, o principal motivo que leva a esse tipo de problema é o estresse da vida cotidiana. No Brasil, esse fator indutor de acne ainda se combina com outras características culturais e naturais do País, como as já citadas alterações hormonais, além da má alimentação e do clima, o que piora ainda mais o quadro. “A causa primordial desse problema é, efetivamente, o estresse. Porém, nossa alimentação, rica em açúcar, também propicia esse tipo de acne, assim como os desequilíbrios hormonais e doenças como o ovário policístico, que hoje atinge uma parcela significativa do público feminino”, explica.
Essa nova faceta assumida pela acne tem levado cada vez mais mulheres aos consultórios dos dermatologistas. A Dra. Carla revela que pelo menos 60% dos pacientes que vão ao seu consultório procuram tratamentos para acne. “E esse número não se restringe aos adolescentes: muitos desses pacientes são mulheres”, pontua. A profissional acredita que existe uma mudança no perfil de paciente com acne, e que essa alteração no panorama geral da doença também vem chamando a atenção da indústria, que direciona cada vez mais energias para o desenvolvimento de tecnologias que tratem a acne feminina. “Alterações na pele promovidas por desequilíbrios hormonais, estresse, falta de sono e má alimentação são mais comuns do que imaginamos. Esse mercado tem grande potencial,e estamos investindo no lançamento de produtos focados na acne adulta”, destaca Cecília Cunha, gerente de Comunicação Científica da Skinceuticals, marca de dermocosméticos da francesa L’Oréal.

Prova de que a Skinceuticals não tem poupado esforços para trazer tecnologias inovadoras para esse público é o mais novo produto da marca, trazido para o Brasil no início do ano: o multifuncional Blemish+Age Defense, um sérum desenvolvido especialmente para o público adulto, que funciona como anti-acne e anti-idade. O produto combina cinco ácidos, sendo que a concentração de 0,3% de LHA com 1,5% de ácido salicílico trata as lesões da acne e as marcas deixadas na pele. Já a junção de 3,5% de ácido glicólico e 0,5% de ácido cítrico minimiza as linhas finas, suaviza a textura áspera e reduz as irregularidades. Para completar, 2% de ácido dioico atua no controle da oleosidade, inibição da proliferação da bactéria Propionibacterium acnes e ajuda a prevenir a hiperpigmentação da pele.

O papel do varejo
Nesse cenário, o varejo farmacêutico tem um papel central para fazer com que a categoria obtenha resultados cada vez mais expressivos. Apesar de não competir com outros canais na venda desse tipo de produto, os varejistas não devem relaxar no atendimento ao consumidor que vai à farmácia em busca de um produto ideal para seu problema e seu tipo de pele.

Por mais que a grande maioria dos pacientes chegue à loja com uma receita médica em mãos, infelizmente, boa parte da população ainda não tem acesso a um convênio médico, muito menos condições para pagar por uma consulta num dermatologista que atenda em um consultório particular. Nesse contexto, a dermoconsultora tem um papel fundamental na orientação desse consumidor. Dessa forma, investir em treinamento para que essas profissionais – assim como os demais atendentes da loja – possam ajudar o cliente a escolher o tratamento adequado para seu tipo de pele é essencial no processo de fidelização do consumidor. A ajuda da indústria nesse processo também é sempre bem-vinda. Quem melhor para falar dos benefícios e características de seus itens do que a própria empresa? Tirar o corpo fora, e jogar a bomba da fidelização para o varejista está, definitivamente, fora de cogitação.

E  vale dizer que investir no aperfeiçoamento da mão de obra não é apenas um diferencial, mas, sim,  questão de sobrevivência. De longe, os dermocosméticos de combate à acne e os demais tratamentos integram, de longe, a categoria sobre a qual o consumidor se sente mais confuso na hora da compra. Porém, ao mesmo tempo, é a que oferece margens mais gordas aos varejistas. Assim, os produtos desenvolvidos para tratar a acne representam um mercado suculento e indispensável para varejistas e indústrias que querem potencializar as vendas de produtos para pele.

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