Fábrica própria: Chegou a hora certa?

Companhias de beleza colocam no papel todos os fatores para avaliar o momento correto de se ter fábrica própria, mas esbarram em uma série de dificuldades existentes no mercado    


No final dos anos 1990, um movimento ganhou força entre os teóricos e consultores de gestão. O de que as empresas de bens de consumo deveriam se dedicar exclusivamente ao desenvolvimento, marketing, vendas e pós-venda de seus produtos. A operação industrial deveria ser terceirizada para empresas dedicadas exclusivamente a esse fim. Naquele momento, no auge da globalização e com a China inundando o mundo com produtos fabricados em escala colossal e com preços imbatíveis, muitos acreditaram que a fábrica deixará de ser um ativo primordial, que qualquer um poderia fabricar os produtos e que o importante mesmo era garantir o controle sobre o processo de desenvolvimento e vendas.

O exemplo de maior sucesso nesse sentido é a Nike, que serviu de base aqueles que preconizavam o fim da produção própria. A marca norte-americana de calçados, equipamentos esportivos, roupas e acessórios é pioneira no movimento de terceirização da produção. Isso acabou se tornando um padrão global para ela que, por não ter fábricas próprias, pôde se concentrar na inteligência de Marketing, Design e Inovação. A empresa mantém uma equipe de aproximadamente 70 profissionais dedicados exclusivamente a monitorar suas cerca de 700 fábricas terceirizadas, espalhadas por todo o mundo, e que garantem a produção da empresa, que gera um faturamento anual acima dos US$ 20 bilhões.

Outro exemplo bem-sucedido é o da Apple, a icônica fabricante do iPhone. A empresa não fábrica nada, concentrando os seus esforços nos processos que agregam valor, como o software e o design, além dos canais de vendas.

Operar nesse modelo é, realmente, um sonho para muitos empresários e executivos do mercado de beleza no Brasil. Afinal, não ter que se preocupar com uma complexa operação industrial, libera tempo e energia para atuar nas pontas que geram valor para o negócio.

A terceirização é a opção natural para as empresas que estão em estágio de crescimento. O histórico de sucesso de muitos players relativamente novos, tem muito a ver com o fato de, em tese, não terem de se preocupar com a fabricação de seus itens. Essas empresas, com estruturas pequenas, puderam se dedicar com mais afinco a áreas como Marketing e Vendas, e outras. Do ponto de vista dos terceiristas, a parceria com os clientes evoluiu muito, refletindo em produtos de maior qualidade e que são entregues dentro dos prazos propostos. “Penso que as empresas precisam cada vez mais se dedicarem às vendas e desenvolvimento de novos produtos ou serviços. A atividade industrial não é o que aparece externamente, para os consumidores, e sim a sua força comercial. Por isso, é importante termos cada vez mais, um setor terceirista forte e atualizado com as novas tecnologias”, clama o empresário Farid Ismail, diretor Lange Cosméticos, uma fabricante especializada em terceirização para a indústria de beleza.
 
É possível dizer que muitas dessas empresas podem seguir ainda por muito tempo apenas terceirizando seus itens, sem se preocupar. Entretanto, já temos casos de companhias que atingiram determinado patamar de vendas e que, na visão delas, já faz-se necessário ter uma fábrica própria.
 
Há pouco mais de quatro anos no mercado de beleza, atuando hoje em dia com produtos para o cabelo e unhas, a Yenzah é outra que almeja realizar fabricação própria brevemente. “Nossa meta é até 2015 ter uma fábrica que produza 70% da nossa necessidade”, revela Rodrigo Goecks (na foto abaixo), empreendedor da empresa carioca. Além disso, ele diz ainda que há muitas marcas com dificuldades e que os terceiristas sentem isso, por isso há impacto no negócio. “Muitos terceiristas fecharam e a situação no mercado está muito preocupante. Há inúmeras vantagens na terceirização, principalmente a de nos concentrar no negócio e não perder tempo com produção. Mas é fundamental ter um parceiro muito alinhado com a marca para que isso funcione”, ressalta Goecks.

Na visão do terceirizador Vittorio Ceragioli, sócio-diretor da Greenwood, houve muita oferta de terceiristas há alguns anos e este excesso de oferta fez baixar muito os preços e a qualidade dos serviços prestados também. “Isso levou a uma concorrência desleal e muitos cessaram suas atividades. A tendência é sempre ter mais concentração de terceiros com parcerias mais estreitas, afinal terceirizar vai muito além de uma mera prestação de serviços ou de uma relação simples fornecedor/cliente. É preciso entender a necessidade do encomendante e colocar-se em seu lugar o tempo todo. Mas é claro que milagres não existem, o terceirizador depende dos fornecedores de material de embalagem e matérias-primas, por exemplo”, lembra o dirigente. 

Força de uma parceria
Outra companhia que tem a construção de uma fábrica como parte de sua estratégia de negócios é a Belcorp, porém essa meta deve ser alcançada em um médio/longo prazo. “Para o volume de negócio do País, a melhor opção no momento é contar com parceiros estratégicos. O que não significa que não estejamos estudando a implantação da fábrica para, no momento oportuno, executá-la”, considera Claudio Eschecolla, diretor-geral da empresa peruana no Brasil. Segundo o dirigente, contar com parceiros locais na produção de itens do portfólio de suas três marcas – L’Bel, Ésika e Cyzone – proporciona uma melhor qualidade de serviço à rede de consultores, e por extensão aos consumidores, tendo em vista que diminui o tempo de resposta às demandas de mercado, além de permitir a redução de custos.

Além da evolução nos processos de produção, os terceiristas também melhoraram em outro ponto junto aos seus clientes: o relacionamento. “Consideramos a terceirização, de forma geral, como uma alternativa estratégica na produção de determinadas linhas e produtos. Valorizamos muito esta opção. Para serem nossos parceiros, as empresas passam por um processo de homologação e certificação de cerca de oito meses, a partir do qual desenvolvemos relações de confiança. Hoje, no Brasil, contamos com quatro parceiros que nos atendem nessa opção. Atualmente, 70% de nosso portfólio é produzido no exterior. Esperamos, até o final deste ano, alcançar a nacionalização de 50% do portfólio das três marcas”, diz Eschecolla.

O diretor da companhia peruana considera que a nacionalização de produtos via terceiros traz um ganho de produtividade e também redução de alguns custos para a Belcorp. Ele assegura ainda que quando o volume de demanda justificar a implantação de unidade fabril própria, estes ganhos poderão se acentuar. “No cenário atual, a opção pela produção terceirizada está vinculada mais a uma questão de volume de demanda do que a fatores logísticos e trâmites e alíquotas de importação”, completa Eschecolla, que acredita que, ao nacionalizar parte do portfólio, a empresa ganhará em agilidade e em determinados custos.

Dificuldades para operar uma fábrica
A decisão final de optar por ter uma fábrica própria não é tão simples assim. De acordo com análise de Farid Ismail, baseado em seu universo de relacionamento, ele garante não ter percebido haver empresas deixando de terem sua produção terceirizada para construir uma própria fábrica. “Não conheço nenhum caso. Construir uma fábrica está ficando cada vez mais difícil e oneroso e as novas legislações da Anvisa irão complicar ainda mais o nível de exigências, tentando nos aproximar cada vez mais da legislação farmacêutica. As empresas não querem assumir tanta responsabilidade com isto”, opina o diretor da Lange Cosméticos.

No dilema de se optar por uma fábrica própria ou não entra outro fator muito importante para uma produção caminhar bem: a previsão de demanda. Em um país como o Brasil, onde a logística é plenamente afetada por conta da deficiente malha ferroviária e pelas más condições das estradas – só para citar alguns exemplos –, realizar essa previsão em qualquer segmento é sempre um desafio. “Na minha opinião, este é o maior problema. Está muito difícil se planejar e conseguir prever o nível de demanda. E ainda mais agora, quando o consumo caiu muito e até as grandes marcas estão tendo queda de share e vendo o seu mercado encolher. Além disso, temos também, como industriais, uma elevadíssima carga tributária para o nosso setor. Além de impostos muito altos, a grande confusão da legislação tributária brasileira, com extensas leis e de difícil compreensão, e que mudam rapidamente, torna-se um grande desestímulo para eventuais empreendedores industriais. Às vezes dá até vontade de desistir da indústria e partir para um outro ramo de atividade com menor interferência do Estado”, desabafa Farid.

Vittorio Ceragioli, da Greenwood, reforça que a distribuição dentro do mercado cosmético representa a maior dificuldade para empresas, e que o Marketing, a Venda e a divulgação dos produtos são os desafios. “Quanto ao fato de alguma empresas acharem desvantagem não possuir uma fábrica, talvez elas não saibam as reais dificuldades e os custos de se ter uma. Há ainda a legislação trabalhista, a burocracia ambiental e suas exigências, a Anvisa, entre outros fatores que interferem nesta realidade de escolher ter uma fábrica ou não”, enumera o sócio-diretor. “Acredito que poderemos ter ganhos em termos de produtividade e economia caso tenhamos uma fábrica própria, mas esta demanda gera dispersão no negócio, em Vendas e Marketing. Além disso, as dificuldades logísticas, de fornecimento e fiscais são enormes. O que também traz dispersão e tira atenção do mercado”, reconhece Rodrigo Goecks, da Yenzah.

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