O Brasil de amanhã

Crescimento da renda da população, sofisticação do consumo, maior acesso aos eletrônicos. Apesar das expectativas para o fechamento de 2013 não serem tão positivas, o crescimento do Brasil no longo prazo é quase certo, segundo consultorias de negócios    

 
Desde que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os resultados do PIB de 2012 – que não conseguiu crescer nem ao menos 1% – o empresariado percebeu que 2013 não seria um ano fácil. Depois disso, ao longo do ano, outras notícias desfavoráveis, como a dificuldade do governo em conter a alta de preços e até mesmo a falta de confiança do consumidor, também minaram as perspectivas do empresariado em fechar 2013 com bons índices de crescimento.
Mesmo os mais ferrenhos defensores das políticas econômicas do atual governo devem dar a mão à palmatória e assumir que estamos atravessando um período adverso; porém quando analisamos a questão de maneira mais segmentada, percebemos que a performance de alguns mercados no País irão garantir o crescimento, mesmo que modesto, da economia e do consumo brasileiro em 2013.

Essa foi uma das conclusões a que chegou a Kanthar World Panel, ao desenvolver a pesquisa Consumer Connection. A análise feita pela consultoria traça um panorama favorável para o fechamento do ano de 2013, que, inclusive, prevê a retomada do crescimento do consumo de bens duráveis.

A pesquisa ainda destaca uma evolução na renda média, o que contribuiu para o aumento dos índices de poupança. Em 2010, a renda média da população nacional girava em torno dos R$ 2.146, sendo que os gastos ultrapassavam este valor, alcançando os R$ 2.171, o que resultava em uma taxa de poupança negativa. Em 2012, a renda média saltou para R$ 2.603 e os custos para R$ 2.542, gerando assim um taxa de poupança positiva de 2%.

Os dados coletados pela Boston Consulting Group (BCG), outra consultoria em estratégia de negócios, vão ao encontro dos resultados colhidos pela Kanthar. De acordo com a BCG, nos últimos dez anos, a mola propulsora do consumo no Brasil foi a ascensão de milhares de pessoas da classe pobre para a classe média, tendências essas que, na próxima década, devem estabilizar e dar espaço ao crescimento da renda desse grupo, que deve se tornar uma classe “Emergente” – como denominada pela pesquisa – com renda entre R$ 2,5 mil e R$ 5 mil.

Complementarmente, a Kanthar detectou que esse incremento de renda e a mudança de classe impactou diretamente na forma como as famílias da maior nação da América Latina direcionam seu orçamento, tendo em vista que no ranking de gastos da família em 2013, “vestuário” passou de quinto para terceiro lugar e “educação” apareceu pela primeira vez entre os cinco primeiros, na quarta colocação.

As novas famílias e seus novos hábitos
Este dado claramente nos indica que os índices de desigualdade social devem cair nas próximas décadas, fato que deve ditar as novas tendências de consumo da população brasileira. A BCG estima que as cerca de 5,3 milhões de famílias que devem aderir à classe “Emergente” até 2020 irão demandar produtos e serviços com maior valor agregado e sofisticação. A classe que reúne as famílias com renda entre R$ 5 mil e R$ 7 mil – chamados pela pesquisa de “Estabelecidos” – também deve crescer nas próximas décadas, aumentando ainda mais a demanda por produtos e serviços de melhor qualidade.

A pesquisa do BCG ainda estima que, ao todo, as famílias de classe média (Emergente e Estabelecidos) e a denominada de Afluentes (com renda mensal domiciliar a partir de R$ 7,5 mil) representem 37% do total de famílias brasileiras em 2020, enquanto atualmente são 29%. Uma década atrás, eram 24%. Essas famílias também serão responsáveis por aproximadamente 85% dos gastos em consumo que devem atingir R$ 3,2 trilhões até o fim desta década.

Rim Abid, sócia da consultoria e co-autora do estudo, acredita que essa nova perspectiva indica que as empresas devem tomar um novo rumo no que se refere ao desenvolvimento de seus produtos, se quiserem se manter competitivas no mercado. “Até agora, muitas empresas têm apostado em produtos de baixo custo já que é o que uma fatia grande da população pode comprar. Mas com o grande número de famílias saindo da linha da pobreza, nota-se um ótimo momento para promover marcas mais sofisticadas para essa população, que cada vez mais, melhora seu estilo de vida e caminha para um semelhante a dos Afluentes”, sublinha.

Todas as pesquisas apontam também para um consumidor mais conectado e com mais acesso a bens como tablets e smartphones. A Consumer Connection revela que somente de 2012 para 2013, o número de usuários de smartphones subiu 185%, enquanto que o de tablets cresceu espantosos 689%. Essa intensa aceitação dos produtos eletrônicos pelos brasileiros ajudam a dar um novo contorno ao varejo multicanal, que já é uma realidade no Brasil, tendo em vista que 84% dos lares brasileiros faz suas compras em três ou mais canais, porém, que deve receber a contribuição cada vez mais pesada do varejo virtual.

A força feminina
Dentro deste diferente perfil de família que está sendo constituído, a mulher tem cada vez mais voz nas decisões finais, e o número de crianças é cada dia menor. Esta situação foi detectada não somente pela Kanthar, mas também pela consultoria Nielsen, na pesquisa intitulada “Foto atualizada da População Brasileira”, que destacou que 78% das mulheres decisoras e responsáveis pelos lares têm mais de 30 anos de idade, e a média de habitantes nas áreas urbanas é somente de três pessoas por residência.

A pesquisa ainda detectou que somente 39% dos lares brasileiros possuem crianças de até 12 anos, e que o ticket médio de uma casa com crianças é 9% superior se comparado aos que não possuem. Com a folga no orçamento doméstico, as mulheres passam a direcionar boa parte de sua renda para si própria, o que ajudou a explicar a ebulição sofrida pelo  mercado de cosméticos, higiene e beleza nos últimos anos.

De acordo com informações da Kanthar, em 2012, o Brasil superou a média global de lançamentos de produtos, sendo que, no ranking das categorias mais lançadas, as três primeiras fazem parte do mercado de cosméticos e higiene pessoal: pós-shampoos, cremes e loções e shampoos, respectivamente. O que se pode tirar de concreto deste bombardeio de números é que a performance do mercado no ano de 2014, dificilmente destoará da que foi observada em 2013. O crescimento será tímido, porém existente.

Bom e concorridos ares adiante
Entretanto, todas as pesquisas mostram que as perspectivas para quem pretende investir no Brasil em um longo prazo são boas, tendo em vista que a renda cresce a cada ano, impulsionando o consumo. Entretanto, a concorrência entre as marcas no mercado brasileiro acirra-se com na mesma velocidade que o consumo familiar: em 2003, os consumidores podiam encontrar nas gôndolas 69 marcas, em 2012 esse número já havia caído para 28, e a tendência é que a briga entre marcas fique cada dia mais feroz.

Para sair com vantagem nessa corrida, é preciso analisar os dados dentro de seus respectivos contextos e se programar. Oportunidades não faltarão para quem souber investir em nichos mal trabalhados ou pouco explorados, ou mesmo em segmentos muito específicos, principalmente na área de cosméticos, higiene e beleza, que a cada dia que passa, ganha um nicho novo. Outra aposta certeira é se preparar para atender um público mais sofisticado e exigente, que demandará produtos de alto valor agregado. Montar uma atuação eficiente de varejo multicanal também será essencial para quem quer manter sua posição no mercado nos próximos anos, dando uma atenção especial para as operações virtuais e as ações em redes sociais.

E por último, ter em mente que o Brasil é um país enorme, com diferenças regionais gritantes. Respeitar essas diferenças é a chave do sucesso de muitos. Por mais que, atualmente, 92% do potencial de consumo brasileiro se encontre em metade de seu território, o Brasil tem passado por mudanças importantes nos últimos anos, que têm rearranjado o mapa do capital no País. Tudo isso fez surgir oportunidades interessantes de negócios em locais que, até bem pouco tempo atrás, eram mercados desinteressantes.

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