Solução local

Em tempos de dólar instável, a L´acqua di Fiori buscou alternativas para evitar o desabastecimento de algumas de suas fragrâncias mais icônicas e cujos componentes da embalagem são importados 



A burocracia e a precária infraestrutura logística brasileira tornam a missão de importar qualquer coisa no Brasil naturalmente difícil.

Quando a esse cenário somam-se um dólar instável e a necessidade de adquirir grandes volumes para viabilizar uma importação sem que isso esteja completamente alinhado à demanda atual, aí o problema cresce exponencialmente.

A tradicional fabricante mineira de perfumes e cosméticos L´acqua di Fiori sofreu com essa questão recentemente. A empresa, uma das primeiras a importar frascos e tampas da Europa para o Brasil ainda nos anos 90, nacionalizou a maior parte do seu portfólio de embalagens ao longo dos últimos anos. Ainda assim, alguns itens continuam a vir de fora por falta de viabilidade para serem produzidos localmente. É o caso das tampas da linha Inizzio e da embalagem da linha V’olgere, duas marcas clássicas do portfólio de perfumaria da L´acqua di Fiori. A gerente de Produtos da empresa, Célia Anrelink conta que a empresa sofreu com o desabastecimento de alguns desses materiais importados. Como duplicar os moldes no Brasil é um processo caro, demorado e tecnicamente complicado, isso acabou gerando problemas de desabastecimento dos produtos nas lojas.

Foi quando surgiu a ideia de relançar esses clássicos em uma edição limitada, com uma nova embalagem que fosse sofisticada e chique, mas fabricada localmente. A empresa queria que o consumidor se sentisse valorizado em ver seu perfume favorito em uma nova embalagem de edição limitada. Foi assim que surgiu a Golden Classics, uma linha que relançou suas fragrâncias de ouro em embalagens diferenciadas, compostas por um frasco da vidraria brasileira Wheaton e tampa da Incom para embalar as fragrâncias V’olgere, Inizzio, Inizzio Amore e Inizzio Acqua Extreme. “São justamente essas marcas que têm componentes de embalagens importados e complexos”, pontua a gerente, que comemora a boa aceitação da novidade. “Acho que o maior impacto já passou, fazermos a mudança para não ficarmos desabastecidos. Os franqueados da marca gostaram da solução, pois eles sentiram na pele o problema de desabastecimento de alguns desses itens”, pontua.

Na frente dos consumidores, existiram algumas reclamações, mas segundo a executiva foram poucas frente ao volume de vendas dessas fragrâncias. “Sempre existe um ou outro consumidor que acredita que como a embalagem mudou a fragrância também sofreu alterações, o que não aconteceu. Mas esse é um impacto normal, sensorial, que o consumidor tem diante de uma mudança de embalagem.”

A estimativa da empresa é que a Golden Classics fique no mercado até o final do ano. Com a boa receptividade, é possível assumir que as novas embalagens possam se converter em definitivas? Na opinião de Célia essa não é a proposta principal, ao menos por enquanto. “É logico que a embalagem original é icônica e não temos interesse em deixá-las fora de linha por muito tempo. Mas diante da situação, se fosse o caso de ficar com essas embalagens (da Golden Classics) isso não seria mais um grande problema. O que tinha de acontecer já aconteceu. Nós esperávamos muito mais problemas, mas a transição foi tranquila, conseguimos abastecer o mercado e sanar a falta de produtos.”

Nacionalizar e racionalizar 
Assim como aconteceu com outras grandes marcas de perfumaria do Brasil nos anos 1990 e no início dos 2000, a L´acqua di Fiori ampliou o leque de frascos importados em seu portfólio, para depois trabalhar em parceria com fornecedores locais viabilizando tecnicamente a produção do maior número possível dessas embalagens. Hoje restam apenas dois itens importados, os frascos da linha V’olgere e os da linha de per fumes Evolution. “Outro problema está nas tampas dos perfumes da Linha
Inizzio, por exemplo, em que temos uma parede extremamente grossa em Surlyn. Estamos trabalhando e já temos alguns fornecedores locais desenvolvendo isso, mas precisamos de mais tempo para chegar ao resultado perfeito. No caso do V’olgere, em que o investimento em moldes é muito alto, talvez seja o caso de mantê-lo importado, já que a embalagem é composta por muitas peças em PP e o próprio frasco, redondo, também não pode ser feito no Brasil”.

No processo para otimizar o portfólio de embalagens, a empresa também migrou algumas marcas para linhas nacionais standard, que para a executiva melhoraram demais aqui no Brasil. “Hoje, nós conseguimos lançar um produto no mercado com itens standard de qualidade, com preço mais baixo do que os importados e velocidade muito maior”, diz Célia. Com os recursos disponíveis atualmente, a executiva acredita que com criatividade e talento dá para imprimir uma personalidade única da marca para se diferenciar. “É um caminho saudável. Uma tampa bola, por exemplo, pode ficar bem em um frasco, desde que você saiba compor o visual, deixando o conjunto harmônico e atrativo aos olhos do consumidor.”

Ao mesmo tempo, o uso dos standard faz todo sentido ao permitir uma diminuição dos investimentos em um cenário muito diferente ao de antigamente, quando você fazia investimentos num produto que seria mantido em linha por 10 ou 20 anos – algo que aconteceu com alguns dos principais clássicos da empresa, que têm um público bastante fiel – mas é cada vez mais raro. “Os últimos produtos que foram lançados têm um ciclo médio ascendente de dois anos, depois eles estabilizam e começam a cair na sequência. Quando chegam a um determinado volume a sua comercialização é descontinuada. O consumidor tem sede por novidades, por isso, os Flankers e as coleções são boas opções para movimentar a marca”, acredita a gerente da L´acqua di Fiori.

Outra ferramenta da qual a empresa tem lançado mão para otimizar os seus investimentos são as parcerias com os próprios fornecedores. A L´acqua não tem investido em novos moldes. Ou a empresa usa o standard disponível no mercado ou, em alguns casos, ela faz o desenvolvimento do componente e vai atrás de parcerias. “Desenvolvemos frascos exclusivos por algum tempo, que depois deixam de ser exclusivos. A mesma coisa acontece com as tampas. Tem dado certo com alguns parceiros. O mercado tem essa necessidade e hoje em dia é muito mais fácil, desde que seja um projeto interessante”, conclui.

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