Terceirização: planejar para funcionar

A terceirização da produção é um fenômeno que tem se intensificado no mundo todo. Para que a adoção desse sistema seja de fato eficaz é preciso muito planejamento de ambas as partes
 

Nas últimas décadas, a terceirização da produção de mercadorias tem se tornado uma tendência em todos os segmentos industriais, em todas as partes do globo. Mesmo quando a empresa possui fábricas próprias, a terceirização tem sido uma boa opção para aumentar a eficiência em momentos que demandam um aumento na produção, como por exemplo, em épocas sazonais como o Natal, Dia dos Namorados ou Dia das Mães.

As empresas também têm visto na terceirização a vantagem de poder desenvolver um produto pertencente a um segmento que não se tem know-how. Por exemplo, uma empresa com ampla experiência em fragrâncias pode lançar uma linha de maquiagem sem ter, necessariamente, que comprar todo o maquinário necessário e se embrenhar na produção de um item que não domina; é só contratar os serviços de um terceiro que desenvolva esse tipo de produto.

A terceirização da produção industrial também ganha cada vez mais importância em um mundo em que investir em um parque industrial fica cada dia mais custoso. Obviamente que desenvolver todos os itens de um portfólio em seu próprio espaço acaba saindo mais barato do que desenvolvê-los fora; porém, a instalação e a manutenção de uma indústria exigem altos investimentos. Atualmente, os executivos estão achando mais sensato passar a parte da produção para terceiros, e investir o dinheiro que seria revertido para uma instalação industrial para ações de marketing e branding.

Vivendo sem

O fenômeno tem se intensificado de tal maneira, que as “empresas sem fábrica” despontam em vários segmentos, e não somente as pequenas e médias. A Jequiti, braço cosmético do Grupo Silvio Santos, deve ser uma das maiores empresas cosméticas do mundo sem possuir nem ao menos uma fábrica. “Não é simples”, destaca Lásaro do Carmo Junior, presidente da empresa. “O correto é você ter produção própria e de terceiro, sendo 60% de seus produtos produzidos em casa e 40% terceirizados. É isso que estamos buscando”, completa.

Além disso, o executivo revela que nesse caminho trilhado em sete anos de Jequiti, foram muitos os erros e acertos no que diz respeito à parte de produção de seu portfólio. “Qualidade, prazo corretos não são fáceis de achar”, conta. Porém, os erros fizeram com que a empresa desenvolvesse suas formas de escolha dos bons terceiristas. “Temos um processo de rankeamento de fornecedores feito internamente com muito critério. Posso garantir que nossos terceiros são escolhidos a dedo e se não cumprirem o prometido em custo e qualidade estão fora”, sublinha.

Entretanto, apesar de uma prática comum no ambiente industrial – e até mesmo no de serviços – muitas empresas, tanto terceirizadas quanto clientes, ainda batem muito a cabeça na hora da produção. Parte disso vem do fato de que este processo exige além de um planejamento claro e eficaz de ambas as partes – que defina prazos, estabeleça quantidades e determine as responsabilidades de cada um – confiança mútua e irrestrita dos envolvidos.

Um produtor para cada empresa
O processo de terceirização está tão avançado que existem diferentes modelos de produção, para empresas de tipos e tamanhos diversos. O mais simples deles, mais conhecido como Sistema de Beneficiamento, é basicamente um processo de manufatura, de industrialização. Nele, a empresa contratada somente fornece a mão de obra, enquanto que o dono da marca fica com a responsabilidade de comprar os componentes do produto. “Este sistema exige um planejamento do cliente com o terceirizador para ter tudo pronto na hora de produzir, e a responsabilidade maior é do cliente, pois o terceiro não pode produzir sem a matéria-prima”, explica Thibaut Fraisse, Latam Sales Director da K&G.

Thibaut ainda diz que existem outros dois tipos de sistemas, o Full Service e Full Value, que apesar de semelhantes, possuem uma diferença crucial. Em ambos, as empresas terceirizadoras são responsáveis por todo o desenvolvimento do produto, desde a compra das matérias-primas até o envase nas embalagens; entretanto, no primeiro – que é o mais utilizado em nosso País – as empresas contratantes indicam os fornecedores e negociam elas os preços de cada componente. Já no sistema Full Value, fica a cargo da empresa contratada escolher os fornecedores e negociar preços. Segundo o executivo da K&G, este já é um sistema bastante difundido na Europa, porém ainda pouco usado por aqui. “Nós estamos tentando trazer este sistema para o Brasil, pois ele beneficia pequenos e médios clientes que têm menos poder de negociação junto aos fornecedores”, completa Thibaut.

Uma espécie de arrendamento
Na verdade, não existe um sistema “ideal” ou “padrão” para terceirização, tudo depende do perfil da empresa demandante e de suas necessidades. O que de fato é necessário quando se terceiriza a produção é planejamento dos dois lados.

Primeiramente, as duas empresas devem acertar uma das questões primordiais para que o trabalho flua bem: os prazos. Tanto a empresa demandante deve ter em mente – principalmente nos sistemas em que o terceirista é responsável pela aquisição dos componentes – de que existem outros players na cadeia, e de que é necessário tempo para que todos possam se harmonizar; quanto a empresa que ficará responsável pela produção tem de ser sincera quanto à negociação dos prazos, principalmente quando o produto que será desenvolvido é produzido com componentes importados.

A Greenwood – tercerizador que tem em seu portfólio clientes como Nivea e Vizcaya – possui um sistema trimestral de planejamento de produção. Vittório Ceragioli, sócio e diretor comercial da empresa, explica que trabalha com dois meses com produção confirmada e o terceiro a confirmar. “Vamos supor que estamos em dezembro, e que o cliente já tem a produção dos próximos três meses programada. Janeiro e fevereiro é firme, ele não pode cancelar. Agora quando entra janeiro, ele tem de confirmar março e planejar abril; e vai andando assim, de três em três meses”, exemplifica o diretor.

Já na K&G, Thibaut explica que os pedidos devem ser feitos levando-se em consideração o tempo de chegada dos componentes à fábrica. Por exemplo, se uma empresa pede o desenvolvimento de uma fragrância, cujo frasco deve ser importado da China e levará quatro meses para chegar, o prazo deve ser fixado a partir daí.
A empresa que está demandando o serviço também deve ter um bom planejamento do volume de produção necessária. Não raro, lança-se um produto que supera as expectativas de venda da marca, e a empresa fica sem estoque. Neste caso, as empresas terceirizadoras podem aumentar a produção, porém, o problema são os componentes. Se a cadeia for composta por fornecedores nacionais, fica mais fácil suprir essa demanda repentina, porém a situação fica mais complicada caso sejam componentes importados.

“Nós costumamos dizer que a relação entre empresa contratante e tercerizador não é uma relação fornecedor/cliente, mas funciona como se o cliente estivesse arrendando um pedaço da fábrica. Então, se ele nos pede para aumentar a produção de um determinado mês em que a produção já estava fixada, nós tentamos, corremos atrás para falar com fornecedor e ver o que é possível fazer”, finaliza Vittório.

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