Desembarque internacional

Especialistas debatem acerca do desembarque de redes de outro países no Brasil e sobre como elas atuarão por aqui, suas dificuldades e o que isso pode representar em termos de mudança de mercado e até de legislação


Os recentes movimentos de fusões e aquisições dentro do varejo farmacêutico brasileiro serviram para alimentar ainda mais as discussões sobre o futuro deste mercado no País. Foram grandes negociações que começaram a moldar um novo formato deste varejo. Entretanto, a maior parte destes movimentos aconteceu entre companhias nacionais. A tão falada “invasão” de varejistas estrangeiros, principalmente os norte-americanos, era apontada como “uma questão de tempo”. De fato abrimos os braços para um player dos Estados Unidos atuar em território nacional, mas, por enquanto, foi só. A chegada CVS ao Brasil, com a compra de 80% da Drogaria Onofre no início do ano passado, poderia ter indicado o início de uma nova fase para o canal farma brasileiro, entretanto essa movimentação parou por ali. Inclusive, até hoje, é possível notar que a rede norte-americana ainda não conseguiu implementar seu modelo de negócio aqui, por uma série de fatores que discutiremos adiante.

Ainda assim, uma série de rumores continuaram surgindo neste mercado a respeito da entrada de redes estrangeiras. Alguns dos boatos davam conta de uma possível oferta da CVS pela Drogarias Pacheco São Paulo, outros diziam que a rede que poderia pintar por aqui seria a Walgreens, por meio de uma eventual aquisição da Brasil Pharma. A Alliance Boots, cuja a Wallgreens detém 45% de suas ações, é mais uma que estaria sondado seu ingresso no País. A rede britânica anunciou em maio deste ano a compra da Farmacias Benavides, no México, e da rede Ahumada, no Chile; marcando assim seu ingresso na América Latina.
Além destas situações, o varejo farma brasileiro também foi dinamicamente influenciado por mais dois movimentos dentro do território nacional. Um deles veio por parte da distribuidora Profarma, que adquiriu as bandeiras fluminenses Drogasmil e Farmalife, do grupo mexicano Casa Saba, e um mês depois anunciou a compra de 50% da Drogaria Tamoio, que atua no interior do mesmo estado. Ainda em 2013, o Grupo Ultra, que congrega as empresas Oxiteno, Postos Ipiranga, Ultracargo e Ultragaz, anunciou a compra da rede paraense Extrafarma, braço varejista da distribuidora Imifarma, que atua nos estados do Pará, Amapá, Piauí, Maranhão e Ceará.

Mudança de mentalidade
Todos estes fatos citados criaram um cenário em que a busca por consolidação tornou-se um fator fundamental para os grandes players. Outro ponto que firmou-se como primordial é a eficiência na operação, cada vez mais necessária para aqueles que desejam seguir crescendo ou sobrevivendo. A chegada de redes internacionais ao Brasil foi tema de discussão do fórum “Negócios, Tendências e Oportunidades – Farma E HPC”, durante o Pharmanager 2014, ocorrido em São Paulo. Na visão de Claudio Roberto Ely, consultor de Governança Corporativa e ex-CEO do Grupo RaiaDrogasil, a chegada de grandes players exige uma efetividade e uma eficiência muito maior. “A entrada de novos participantes no mercado obriga os atuais a melhorarem, pois a competição melhora a gente todos os dias”, resumiu.

Todavia, o especialista ilustra as dificuldades que estes players terão para se firmar em território tupiniquim. “Uma farmácia que se toca no Brasil não é a mesma que se toca na Argentina, por exemplo. Há tipos diferentes de abordagem. Houve uma época, na RaiaDrogasil, em que pensamos em expandir para a América Latina, só que quando se estuda cada país há regulações tão diferentes que parece ser uma outra indústria”, revelou Claudio Ely, situando que, para empresas de capital aberto, a expansão é sempre necessária, já que o mercado cobra rentabilidade de expansão, fazendo com que as companhias precisem buscar outros mercados.
Para Eduardo Rocha, diretor da IMS Health, o varejo é local e existem diferenças fundamentais entre os mercados. “O modelo americano não virá para cá porque não cabe aqui. Lá as lojas têm em média 500 m² e as nossas não têm 100 m². Há modelos diferentes e o que vai mudar é realmente o processo. As empresas locais terão de se adaptar e melhorar seus processos, além de serem mais eficientes. Isso não significa que o varejo internacional irá acabar com o nacional. Creio que teremos grandes grupos nacionais e redes locais e regionais, mas haverá consolidação”, opinou. Para ilustrar este contexto, Claudio Ely citou a indústria financeira nacional. “Temos grandes bancos internacionais no Brasil, mas quais são os grandes bancos do País? Fora os públicos, são os nacionais! Quando aconteceu a grande crise americana, todos correram para colocar seu dinheiro no Bradesco, Itaú, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Todos viam os bancos nacionais como um porto seguro”, relembrou.

O exemplo indicado por ele serve para direcionar sua opinião de que a vinda de players internacionais para cá não vai acabar com os grandes grupos nacionais. “Vai melhorar o mercado. Lá eles têm outro tipo de abordagem, as farmácias são quase como supermercados. Vimos que as lojas de conveniência que vieram para cá, como a 7-eleven, não funcionaram. Isso aconteceu por um simples motivo: a inflação. Ela é algo muito nefasto e terrivelmente desleal para com o pobre. Quem tem dinheiro ganha dinheiro com a inflação, essa é a verdade. Como tempo é dinheiro, sabendo trabalhar, ganha-se sem fazer nada”, observou o consultor.

Cenário moldado
As comparações entre os mercados continuaram alimentando este debate e as diferenças entre eles deixam várias dúvidas no ar quanto ao modelo de loja que deverá predominar no canal farma brasileiro. De acordo com Claudio Ely, ainda haverá muitas discussões sobre isso, sustentadas pelo fato de que existem empresas que trabalham com saúde e beleza e há outras que trabalham com um espectro maior, porque a legislação estadual permite e faz com que a empresa assuma uma conveniência maior.

“Esse espaço de regulação vai determinar isso, não adianta apenas querer. Lembro que antigamente se entrava em uma farmácia nos Estados Unidos e até cigarro se vendia, e depois de uma enorme pressão, isso acabou. Tudo depende da regulação. Se formos a Nova York hoje é muito difícil encontrarmos uma farmácia independente, praticamente há só redes. Porém, não creio que elas vão dominar tudo, sempre haverá alguns nichos de mercado em que alguém pode atuar, pois a capilaridade das grandes redes não é tão grande, já que os custos de operação não permite que se tenha lojas com venda menor.”

A conclusão de Eduardo é de que a adaptabilidade é palavra de ordem para o varejo farmacêutico brasileiro. “Se olharmos hoje para o mercado, temos vários modelos. Por exemplo, modelos como o da Ultra Popular. Eles estão em um nicho muito claro. A própria RaiaDrogasil, com a experiência Farmasil, é outro modelo bem nítido. Então, adaptabilidade é você conhecer seu consumidor e saber o que tem de fazer no local onde está. Também pode acontecer de haver farmácias de conveniência. O Grupo Ultra está aí, com mais de quatro mil postos de gasolina e dois mil de venda de gás. Não sei em quantos destes locais cabem uma farmácia, mas creio que eles irão trazer um modelo novo”, completou o dirigente.

Claudio reportou também que, para as redes, tudo que se faz há custo. “Digo sempre que a escala traz alguns bônus, mas também traz alguns ônus. Um dos ônus é o da padronização. Não se pode pensar em ter, por exemplo, a seguinte situação: ‘A loja nº 999 fica localizada ao lado de um banco e o cara poderá ir lá para depositar o dinheiro’. Isso não existe, é tudo padronizado. Além disso, quanto ao consumidor, a cada dia a informatização te aproxima dele. Se tem um conhecimento do que ele faz, se pode atendê-lo de maneira diferente. Hoje há um potencial muito maior de proximidade ao cliente do que em relação a dez ou 15 anos atrás.”

Reflexos na legislação?
A discussão sobre como a entrada no Brasil de nomes de peso do varejo farma internacional poderia alterar nosso mercado chegou até à questão de possíveis mudanças na legislação federal do setor. Neste ponto, os dois profissionais divergiram em suas opiniões. Claudio Ely acredita que pode haver sim alterações na lei, mas ele fez uma ressalva dizendo que as redes devem cuidar para que tenham sempre organismos de assessoria parlamentar, para não serem surpreendidos. “Me lembro que uma vez passou um processo em uma comissão da Câmara ou do Senado que ordenava que toda a farmácia precisaria ter uma cruz verde. Ou seja, há muitos projetos de lei mais piorando do que melhorando”, considerou.

Por sua vez, Eduardo acredita que o fato de ter poder econômico não seja suficiente para conseguir mudanças no sistema legislativo do canal farma. “Se fosse assim, o setor supermercadista, que é poderosíssimo, já teria colocado a farmácia para dentro. Esta é uma questão estadual, muitas vezes municipal, e por isso acho que não vai acontecer”, comparou.

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